Um banho quente e muitas descobertas


Por Katia Negri

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Água quente e sabonete, mais um dia chega ao fim! As costas parecem reclamar daquela cadeira desconfortável da sala de espera do dentista, do tempo em pé durante o trabalho e da louça que acabei de lavar na pia da cozinha! Banho apressado às 11:30 da noite, depois de um dia tão cansativo parece um insulto è esse ritual de auto cuidado que para mim sempre significou tanto. O cansaço às vezes não me permite saborear as delícias da vida. Enquanto automatizo meus movimentos com o sabonete, penso no dia seguinte, no que preciso falar na reunião, no telefonema que não posso esquecer, na resposta ao e-mail que ainda não consegui enviar, penso no que disse, naquilo que ainda preciso dizer, nas palavras, nas frases…. E todo aquele emaranhado de ideias toma conta de mim e do meu banho, nada relaxante. O sabonete era novo e artesanal, comprado em uma casa de banhos recentemente inaugurada na minha cidade. Comprei porque adoro tomar banho!!! Mas não notei o perfume! Não sei a textura, nem mesmo percebi se faz espuma!!!!

Falar tem sido um exercício presente em minha vida, tão presente que de tanto falar percebo que às vezes não consigoouvir. Ouvir a água que cai do chuveiro, ouvir meu coração batendo, ouvir a sensação que o sabonete me causa, ouvir os cheiros, ouvir os sabores diferentes, ouvir o riso de alguém na sala se divertindo com um vídeo engraçado da internet! Agora, percebo o quanto deixei de ouvir….. Ouvir o silêncio de quem sofre, ouvir a lágrima que escorre, ouvir o entusiasmo de quem vai viajar de férias…. Para ouvir é preciso silenciar e isso inclui não responder ao Facebook sobre o que está pensando nesse momento. Ao escrever esse texto, comecei a notar o quanto somos estimulados a falar, o que pode ser positivo, mas é tanto falar que não sobra espaço para ouvir! E ouvir significa estar presente, parar e se conectar comigo e/ou com o outro!  Ouvir é também tomar banho relaxante e sentir o perfume do sabonete novo, é sentir o vento que sopra, ouvir é estar vivo! E para ouvir não é preciso escutar, ouvimos com todos os nossos sentidos, para ouvir basta estar!

E você, está exercitando o ouvir? Quero muito ouvir o que você pensa sobre esse assunto!

Ahhhh, o sabonete é de capim limão, faz muita espuma, uma espuma tão branquinha que parece neve, toque macio, e o aroma me fez lembrar a infância! Ouvi até minha mãe me chamando porque o almoço estava pronto!

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Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@az.org.br

Sobre ser mais…


Por Neide Almeida

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Parando para pensar sobre o “ser mais.

De  uma forma muito inquietante esse assunto me vem a mente há alguns anos.

Porque ser mais? Mais feliz, mais saudável, mais amado, mais próspero, mais alegre? Ora bolas, se já sou feliz, se já sou saudável, porque ser mais? Já sou!

Me parece uma ideia competitiva, um tanto manipuladora, fomentando alta ansiedade, muito propícia ao consumismo adoecido.

Mais bonita, mais jovem, mais inteligente, mais viril, mais ligada, mais cheiroso, mais liberal, mais popular. E mais pleno? Não basta ser pleno, ainda tentam  vender a ideia de ser mais pleno.

Será mesmo que preciso ser mais, e mais e mais? Já não sou o suficiente, já não tenho o essencial?

Libertar-se de amarras que ditam o nosso próprio bem estar é um dos ganhos de desenvolver habilidades socioemocionais. Reconhecer as próprias necessidades, valores, aptidões, naturalizar as diferenças e apoiar-se nas ações que trazem bem estar mútuo é um caminho saudável para ter uma vida produtiva e feliz.

Desenvolver-se para lidar com os desafios da própria vida e fazer escolhas conscientes.

Autônomo das nossas necessidades e potencialidades nos colocamos no mundo com mais leveza e criatividade, e assim contribuímos, conscientemente, para o desenvolvimento dos espaços que ocupamos, saindo do mim para o nós.

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Neide Almeida

Atuou por 7 anos no PróHosic em Taubaté no apoio à pacientes e familiares do Depto. de Oncologia e atuou no mesmo período no CVV – Centro de Valorização da Vida, no atendimento emocional à pessoa em crise. Há 10 anos atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças.

 

Mãe, o que é ter problema?

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A pergunta que há muito tempo temia, chegou até mim. E agora? Alguns devem estar se perguntando. Esta não é uma pergunta simples e fácil de ser respondida.

Acredito ser dos momentos doloridos que já vivi. Ao mesmo tempo que ingênua, parecendo sem sentido, a pergunta está carregada de muita dor, dúvidas e angústias.

– Mãe, eles me chamam de feio, falam que falo tudo errado e que tenho problema. Me diz o que é ter problema, mãe?

Meu coração disparou, quanta dor embutida em poucas palavras, o choro veio com força total, precisava responder aos questionamentos, mas como fazer isso aos prantos ? Lá foi a mãe, como tantas outras vezes, engolir o choro e acolher.

Afinal, essa era apenas mais uma das várias situações de BULLYING, vivenciadas tão bravamente pelo meu filho.

– Dei um abraço cheio, afaguei a cabeça, dei beijos e perguntei:
– Filho, como você se sente quando eles te falam isso?
– Mãe eu fico triste, magoado, não sei porque falam isso.
– Filho o que você pode fazer para se sentir melhor quando coisas desagradáveis assim acontecem?
– Mãe eu respiro fundo, choro e peço ajuda para diretor.
– Essas coisas deixam a gente triste mesmo, a mãe também não sabe por que eles fazem isso, mas fico feliz por saber que você fez algo para se sentir melhor.
– Filho o que você entende, para você o que é ter problema?
– Não sei mãe.

– Chame sua irmã e vamos pensar juntos, pode ser?
– Sim mãe.
Assim começamos a refletir, em conjunto, sobre o que é de fato ter um problema.

– Temos os problemas que são materiais e problemas emocionais. Materiais são aqueles que perdemos algo ou gostaríamos de ter algo que não temos. Mãe vai dar exemplos para ficar mais fácil entender a diferença.

– Quando tem uma pessoa na família que está doente e não tem dinheiro para comprar remédio, isso é um problema?
– Sim mãe.
– Qual é o problema?
– Não ter dinheiro para comprar remédio.

– Quando um pai não tem trabalho, isso é um problema?
– Sim mãe.
– Qual é o problema?
– Sem trabalho ele não vai ter dinheiro, como ele vai pagar as contas?

– Quando tem alguém com muita fome, barriga doendo, mas a pessoa não tem o que comer, isso é um problema?
– Sim, isso é um problema.
– Qual é então o problema?
– A falta da comida, se tivesse comida a barriga não ia doer.

Temos também os problemas emocionais. São aqueles que envolvem nossos sentimentos e emoções. Por exemplo:

– Uma pessoa passa por uma tristeza muito grande na vida dela, ela amava muito a mãe e a mãe morre, isso é um problema?
– Sim mãe.
Qual é o problema?
– A tristeza que ela está sentindo, a mãe que ela amava morreu.

Uma pessoa não consegue fazer nada, nem trabalhar, nem estudar, e nem ficar feliz por que está com depressão, isso é um problema?
– Claro, né mãe.
Mas qual é o problema?
– Mãe ela está doente, com depressão.

– Então vocês perceberam o que é ter um problema?
– Agora sim.
– Eles podem ser materiais ou emocionais.

– Nós sermos diferentes é um problema? A mãe ter pele mais clara e vocês mais escura, isso é problema?
– Não, né mãe.

– Uma criança que nasce com Síndrome de Down, ela tem um problema?
– Mãe, ela nasceu assim, ela não pode mudar.

– Um amigo autista, tem problema?
– Mãe, ele é só diferente, isso não é problema.

– Isso que seus amigos acham que são problemas, não são. São apenas nossas diferenças.

– Quando teus amigos dizem que você tem problema filho, eles estão falando de problemas mesmo ou das nossas diferenças?
– Eles falam que é problema mãe, mas são nossas diferenças e não problemas.
– Mãe, que bom que a gente não tem problema, né?

Aí pergunto para você que está lendo, o que é ter problemas?

É muito claro que o problema não é ser diferente, o problema é, de fato, não enxergarmos nossas diferenças como algo natural.

É ainda mais claro que precisamos avançar muito enquanto humanidade, não basta falar. Inclua, inclusão vai muito além disso.

Vejo como é muito fácil julgarmos o outro apenas por ser diferente, por falar de forma diferente, por pensar diferente.

Diante disso fico aqui me perguntando o que é ESSENCIAL QUE NOSSAS CRIANÇAS APRENDAM, grifo para refletirmos sobre o que é REALMENTE ESSENCIAL, o que vai de fato fazer a diferença positiva na vida deles.

De que adiantar focar em  tornar meu filho um expert nos conhecemos acadêmicos, mas não ensina-lo coisas ESSENCIAIS, como, por exemplo respeitar a si e ao outro, entender que diferenças não são problemas, aprender a incluir e não potencializar ainda mais a exclusão, principalmente de alguém que já tem suas dores e dificuldades pela própria condição humana.

Mais e mais perguntas vão surgindo a partir de um coração de mãe explodindo de tanta dor.

Onde nos perdemos?
Onde deixamos de nos ver?
Em que momento trocamos o ESSENCIAL pelo supérfluo?
NÓS PRECISAMOS SER VISTOS.

Não com pena, muito menos como seres de luz e sim como seres humanos que somos.

Agora, depois de por os dois na cama, refletindo sobre esse e tantos outros ocorridos, principalmente no ambiente escolar, vejo o quanto é poderoso o aprendizado de habilidades socioemocionais através dos programas Amigos do Zippy e Amigos do Maçã que meus filhos tiveram o privilégio de vivenciar.

ISSO É SEM DÚVIDA ALGUMA O ESSENCIAL A QUE ME REFERI.
As habilidades socioemocionais funcionam como fatores de proteção da saúde mental.

Vocês se atentaram ao diálogo, como ele consegue com muita facilidade comunicar seus sentimentos, nomear corretamente cada um deles, encontrar uma estratégia de alívio momentâneo da dor e, o mais lindo, sem discurso julgador para com amigos ?

Nesses momentos vejo o valor imensurável da empatia, da resiliência, da solidariedade, da autonomia de pedir ajuda quando não conseguir resolver sozinho, do autoconhecimento, reconhecendo exatamente o que sente frente a isso e ainda, no meio da dor, encontrar alguma estratégia para se sentir melhor, e tantas outras habilidades aprendidas.

Para nós, pais de crianças deficientes ou ditas não deficientes, sem pleno desenvolvimento dessas habilidades, facilmente caímos no julgamento sem termos uma visão ampla do ocorrido, mas, com coração manso, é claro que cada um dá exatamente o que tem e o que pode, nada além disso. Portanto, precisamos, não apenas enquanto pais, mas enquanto professores, gestores ensinar também o ESSENCIAL.

Nos dói sobremaneira perceber que nossos filhos são invisíveis, não são vistos, não apenas pelos amigos de classe, mas pela sociedade como um todo.

Alguns vão dizer que se “está vitimizando”, coisa que já escutei algumas vezes de pais com crianças ditas “normais”, será, realmente, que eles me entendem, sem viver o que vivemos?

Gratidão a você que chegou até aqui, este texto foi escrito com ajuda dos meus filhos, ambos querem muito que outras famílias e outras crianças possam entender o que é ter problema!

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Rosane Voltolini, psicóloga, atua na ASEC desde 2009, promovendo Saúde Emocional e Social de Crianças e é mãe de coração de duas lindas crianças que estão, bravamente, sendo educadas para valorizar o ESSENCIAL.

 

Os desafios da adolescência e a promoção da saúde mental – contribuições do programa Passaporte: habilidades para a vida

Por Andréa Monteiro e Letícia Sato

Qual a imagem que nos vem à mente quando pensamos em “adolescência”? É comum ouvirmos frases como “é a pior fase da vida”, “são todos aborrecentes” e os sentimentos a eles associados, de uma certa repulsa e impaciência. Ao falarmos dos adolescentes parecemos estar falando de seres rebeldes, indisciplinados, raivosos, que tudo questionam e desafiam. Tornou-se comum também afirmar que esta seria uma fase de inevitável “crise”, uma vez que nela se vive a transição entre a infância e a vida adulta e, que neste embate de gerações, o conflito seria inevitável.

Será?

Atualmente se questiona a ideia de adolescência como fenômeno natural, com características universais, ao contrário do conceito de puberdade, este sim um fato biológico, marcado por transformações fisiológicas que caracterizam a transição entre a infância e a vida adulta. A adolescência, por seu turno, é reconhecida hoje como um fenômeno cultural, cujas definições estão marcadas pela forma como um determinado grupo encara estas transformações e como orienta seus jovens. Ou seja, o conjunto de valores e significados da sociedade em geral e da família podem tanto facilitar quanto dificultar esta transição [1].

Sabendo disso, podemos promover uma aproximação com os adolescentes (sempre no plural!) despidos de rótulos, de conceitos prévios, e abertos a ouvi-los, a conhecer suas reais necessidades. Pois, da mesma forma em que existem aqueles que atravessam esta fase de forma tranquila e sem maiores crises, há os que passam por conflitos e sofrimentos tortuosos.

Seja qual for a forma de lidar destes jovens, não se pode negar que o mundo atual os coloca em situações desafiadoras e difíceis, que exigem deles respostas que muitas vezes vão além daquilo que são capazes de pensar e realizar.

Eles se preocupam em inserir-se e fazer parte de grupos com os quais se identificam, mas precisam evitar se envolver em comportamentos de risco; eles precisam lidar com o crescente desejo sexual, ao mesmo tempo em que precisam saber regular suas emoções e lidar com as inevitáveis rejeições ou com o risco de gravidez; eles anseiam pela liberdade mas precisam aprender a carregar o “fardo” da consequente responsabilidade; eles desejam ser autônomos mas para isso precisam abrir mão da dependência e do conforto proporcionado pela família; eles desejam ser diferentes e ter seu próprio estilo, mas ao mesmo tempo precisam aguentar as provocações dos “iguais” e o bullying; eles querem ser adultos, mas não conseguem um emprego e não têm como manter-se sem ajuda dos pais.

Enfim, poderíamos ampliar esta lista para englobar as várias dificuldades vivenciadas por estes jovens que estão buscando construir sua própria identidade, ao mesmo tempo em que têm que dar conta ‘das realidades’ do mundo. E a pergunta que fica para nós adultos e educadores é: como ajudá-los a viver esta fase de modo menos traumático e mais harmonioso possível?

Ouvimos muito hoje sobre o aumento das taxas de suicídio, automutilação, depressão e comportamentos de risco e autodestrutivos associados a esta faixa etária. O foco parece estar sendo em encontrar os culpados, o que acaba gerando um clima geral de defensividade que nos impede de buscar e encontrar as reais causas dos problemas. Na realidade não existe apenas uma causa ou uma explicação possível para estes comportamentos. Eles são fruto de uma complexa rede de causas e condições, ademais respondem a necessidades internas que muitas vezes são muito difíceis de localizar e entender.

Estudos [2] apontam que o ser humano em geral age da melhor forma possível diante de situações que considera difíceis, baseado na melhor ‘avaliação’ que pode fazer destas situações e impulsionado pela emoção que elas lhe trazem. Isso não quer dizer que a “melhor forma” encontrada seja fruto de uma reflexão prévia, adequada socialmente ou a mais eficaz em termos de melhoria de seu estado íntimo ou da situação em si.  Em outras palavras, sempre estamos lidando com as dificuldades, de uma maneira ou de outra e muitas vezes nem percebemos as consequências de nossa forma de agir ou se elas funcionam da forma como gostaríamos.

Nesta perspectiva, lemos os comportamentos problemáticos e inquietantes dos jovens como a forma possível deles comunicarem seu estresse, na ausência de recursos internos que os ajudem a lidar de uma forma (mais) saudável e/ou na falta de uma rede de apoio onde possam encontrar acolhimento e apoio.

Atualmente, estamos imersos em uma “cultura de violência”[3] que permeia as relações sociais e cuja principal característica é a negação de necessidades fundamentais tais como reconhecimento, apoio, escuta e respeito mútuo [4]. Muitas vezes, atos de agressão a si e/ou ao outro podem ser a forma que os jovens encontraram para responder a um mal-estar não nomeado. Estudiosos inclusive apontam as condutas de risco dos adolescentes como maneiras ambivalentes de lançar um apelo às pessoas mais próximas, àquelas com quem eles contam e revelam uma necessidade interior de encontrar significado para seu estar no mundo[5].

Além disso, os jovens hoje encontram-se engolidos pela realidade virtual e pela ampliação das possibilidades de comunicação e de encontro entre aqueles que compartilham dos mesmos interesses. Isso lhes oferece oportunidades de se conectarem a causas, de compartilharem globalmente experiências similares e de se unirem de forma colaborativa a projetos, mas pode, ao mesmo tempo, ser altamente perigoso quando os interesses em comum são os sofrimentos e patologias (anorexia e suicídio, por exemplo) e quando fóruns são criados visando incentivar e mesmo ensinar práticas destrutivas. A cultura digital é, na realidade hoje, parte integrante da vida de qualquer adolescente, esteja ele onde estiver no mundo.

Diante disso, nos parece imperativo promover atitudes saudáveis, no mundo real e virtual, visando a promoção de ambientes com uma cultura de relacionamento em que se cultive a reciprocidade: verdadeiramente ouvir e ser ouvido, realmente ver e ser visto pelos outros. Sentir-se seguro com outras pessoas é essencial para a saúde mental. Precisamos que os jovens se familiarizem com seu mundo interno e saibam identificar o que os atemoriza, incomoda ou deleita. Identificar os próprios sentimentos, sintonizar com suas emoções e das pessoas a sua volta e desenvolver estratégias de adaptação para lidar com as reações emocionais – são formas de promover a chamada “educação emocional” que engloba as competências necessárias para vencer os desafios do século XXI, tais como o autoconhecimento, a autonomia, o protagonismo e a capacidade de se prevenir de comportamentos autodestrutivos, com consequências muitas vezes fatais[6].

Este é o foco do programa Passaporte: Habilidades para a Vida. Voltado para o público pré-adolescente[7], o programa está baseado em uma concepção de promoção de saúde mental que dá ênfase “às forças do indivíduo presentes antes das dificuldades acontecerem e de comportamentos não adaptativos se desenvolverem”[8].

Diferente de programas de caráter apenas preventivo que têm como alvo problemas específicos como uso de drogas e gravidez precoce, o programa Passaporte: Habilidades para a Vida atua na promoção e visa desenvolver habilidades que tornam os jovens mais bem equipados para lidar, com sucesso, com dificuldades do dia-a-dia. O que aumenta sua capacidade de adaptação no futuro e melhora sua autoestima, sentimento de competência e bem-estar geral, atuando de forma preventiva, ao mesmo tempo que evita uma gama maior de problemas[9].

Uma das habilidades fundamentais do programa, neste sentido, é a habilidade de buscar soluções, trazendo à consciência o maior número de estratégias para melhorar uma determinada situação ou para se sentir melhor em relação a ela, sem prejuízo para si ou para os demais.

Especialistas em suicídio apontam que é justamente a escassez de estratégias adaptativas que leva jovens e adultos a tentarem dar fim às suas vidas, uma vez que se sentem incapazes de lidar com situações difíceis[10].

No contexto do Passaporte: Habilidade para a Vida, os participantes não recebem, no entanto, orientação específica sobre quais estratégias são consideradas boas ou ruins.  Mas são estimulados a pensar criticamente, cabendo a eles antecipar as eventuais consequências de suas escolhas e reconhecer a responsabilidade de suas ações.

Este processo acontece ao longo de todo o programa, com apoio de metodologias ativas, que permitem que os participantes levantem o maior número de estratégias possíveis para determinadas situações, analisem cada uma das alternativas levantadas, tendo como premissa filtros que promovem a análise de consequências e prejuízo para si e para os outros e decidam pela melhor.

É o aprendizado, decorrente deste processo, que permite que os jovens tenham autonomia para encontrar soluções em momentos em que não podem compartilhar suas dúvidas ou dificuldades com alguém em quem confiem, como por exemplo em interações na internet e nas redes sociais. E ao mesmo tempo dá ao programa um caráter universal, na medida em que permite que os jovens tenham recursos para avaliar eles próprios as formas mais adequadas de lidar com suas dificuldades considerando características pessoais, pessoas envolvidas e seu contexto familiar e social.

Oferecido em escolas, Passaporte: Habilidades para a Vida está alinhado com diretrizes da Organização Mundial da Saúde que reconhecem o papel crucial das instituições escolares na ‘preparação das crianças para a vida’ e apontam o ensino de habilidades chaves tais como raciocínio crítico, comunicação, relações interpessoais e regulação emocional como forma de promover saúde mental em crianças e adolescentes[11].

Mais do que impactar trajetórias individuais, estudos apontam que ações voltadas para o desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais, como autocontrole e resolução de conflitos, em escolas podem impactar positivamente a escola e a comunidade, diminuindo casos de violência nestes espaços[12].

Com efeito, programas de “Aprendizagem Emocional e Social” baseados em pesquisas, como o Passaporte: Habilidades para a Vida, se mostraram eficazes no desenvolvimento de ambientes de aprendizagem mais participativos, bem administrados, cooperativos, afetuosos e seguros. O que leva a uma maior ligação, engajamento e compromisso com a escola como o todo, melhorando o próprio desempenho acadêmico[13].

Dados das sucessivas avaliações do programa Passaporte: Habilidades para a Vida corroboram esta afirmação demonstrando seu impacto positivo no clima e ambiência da sala de aula. Professores observaram, por exemplo, que após participarem do programa os jovens passaram a lidar melhor com conflitos, exigindo menos suas intervenções. Além de relatarem que suas relações com os alunos se tornaram melhores e mais próximas[14].

Um fator importante para a obtenção destes resultados é, sem dúvidas, a capacitação dos professores, que além de fornecer fundamentos conceituais e metodológicos para o desenvolvimento do programa, busca sensibilizá-los para a criação e/ou manutenção de ambientes emocionalmente seguros, onde os jovens se sintam apoiados, respeitados e tenham oportunidade para colocar em prática as habilidades que estão aprendendo[15].

Tem sido unânime, em levantamentos qualitativos realizados no Brasil,[16] os relatos de professores que apontam que a capacitação e o desenvolvimento do programa com os jovens fornecem igualmente recursos para que eles próprios melhorem suas habilidades para lidar com emoções e situações difíceis, tanto no âmbito pessoal, quanto profissional. Mais eficazes ainda se mostram os resultados, quando a equipe gestora promove o alinhamento da filosofia do programa e reverbera o clima positivo e saudável, na escola como um todo.

Passaporte: Habilidades para a Vida vem se expandindo para diferentes países, sendo desenvolvido atualmente no Canadá, Bélgica e Brasil. Inspirado pelo programa internacional de promoção de saúde mental Amigos do Zippy , desenvolvido no início dos anos 2000, presente em cerca de 30 países do mundo e com mais de 1,8 milhão de crianças participantes até hoje[17] -, Passaporte: Habilidades para a Vida foi desenvolvido como parte de uma iniciativa em promoção de saúde mental para crianças financiada pela Agência Nacional de Saúde do Canadá. E é resultado de um rigoroso processo de avaliação e aperfeiçoamentos sucessivos realizados ao longo de cinco anos[18].

O programa tem como eixo condutor uma história em quadrinhos, onde acontecem situações comuns à jovens em diferentes contextos sociais. A partir das histórias, são desenvolvidas atividades lúdicas que permitem que os jovens identifiquem dificuldades relacionadas ao tema da aula em suas próprias vidas e busquem coletivamente estratégias de enfrentamento. Em diversas sessões, os participantes são convidados a preencher no encerramento o seu “passaporte”, fazendo um registro daquelas estratégias que consideram mais úteis para si – seja no presente ou no futuro.  O que contribui para que os jovens construam, pouco a pouco, um repertório de estratégias de adaptação como parte de sua própria identidade, daí o passaporte, um documento de identificação, ter sido escolhido para dar nome ao programa.

O programa está estruturado em cinco módulos que abordam os seguintes temas: emoções, relacionamentos, situações difíceis, injustiças, mudanças e perdas. E seus objetivos incluem: ampliar o repertório de estratégias dos jovens para lidar com dificuldades do dia a dia; melhorar suas habilidades sociais, incluindo expressão e regulação emocional, resolução de conflitos e controle do estresse; encorajar a cooperação e o apoio mútuo; estimular o pensamento crítico e promover o bem-estar emocional[19].

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Vale apontar que todas as atividades do programa têm caráter cooperativo e os jovens são incentivados a oferecer e pedir ajuda sempre que preciso: habilidades que representam fatores de proteção importantes no campo da saúde mental.

As avaliações do Passaporte: Habilidades para a Vida apontaram que o programa impacta positivamente também o contexto familiar, por meio de atividades oferecidas a cada módulo para serem realizadas em casa. Considerando as mudanças características da adolescência e os fatores de risco envolvidos que mencionamos anteriormente, é frequente que esta fase represente um período estressante para os pais, dificultando o diálogo.

De acordo com pais participantes das avaliações, no entanto, as atividades permitiram abrir o diálogo e discutir temas importantes em família. Alguns jovens aproveitaram a oportunidade para denunciar situações de bullying em que estavam envolvidas[20]. O que reforça as contribuições do programa para a criação de ambientes de apoio para os jovens – dentro e fora da escola.

No Brasil, o programa Passaporte: Habilidade para a Vida, conta com a expertise pioneira da Associação pela Saúde Emocional de Crianças – ASEC, que há 14 anos implementa projetos e programas com o propósito de promover a saúde mental de crianças, jovens e adultos tendo como eixo principal a ampliação de recursos internos ou, em outros termos, o que a educação define como desenvolvimento das habilidades socioemocionais com a construção de ambientes em que as relações sejam de cooperação, acolhimento e apoio mútuo.

A atuação da ASEC se faz baseada em 2 pilares: as metodologias dos programas Amigos do Zippy, Amigos do Zippy em Casa, Amigos do Maçã e Passaporte: Habilidades para a Vida, todos de cunho universal, baseados em pesquisa, validados e implementados em mais de 30 países; e a metodologia de formação de profissionais (educadores, professores e assistentes sociais) desenvolvida pela própria ASEC e validada pelo MEC no “Guia de Tecnologias Educacionais da educação integral e de tempo integral”, desde 2013, no eixo dos Direitos Humanos e Promoção da Saúde. A cultura da organização sorve na fonte da filosofia dos programas e nos valores trazidos do CVV (Centro de Valorização da Vida), por seus fundadores, voluntários da organização irmã, que atua no Brasil há 56 anos.

A ASEC acredita que a escola é o ambiente chave influenciador da saúde e bem-estar e trabalha no sentido de expandir o repertório, das crianças e adolescentes, de habilidades úteis para lidar com dificuldades e problemas estressantes que encontram em sua vida diária, incluindo relacionamentos com colegas e pais[21].

Mas as contribuições do programa Passaporte e os benefícios promoção da saúde mental estão restritos ao contexto da educação ?

A habilidade que impacta na melhora dos níveis concentração do aluno, tão importante para processo ensino aprendizagem é a mesma habilidade que fortalece emocionalmente o jovem para lidar positivamente com conflitos de ordem emocional, impactando concomitantemente na área da Educação e da Saúde. A habilidade de fazer escolhas adequadas é igualmente importante na área da educação, através da responsabilidade assumida desenvolvida a partir  da capacidade de fazer boas escolhas impactando também na área da segurança publica. Reduzir os índices de jovens, no uso abusivo de álcool, drogas, na criminalidade pode se dar através dessa mesma habilidade desenvolvida. Assim como a habilidade de relacionar-se de forma saudável é de fundamental importância para boa convivência entre as pessoas, para desenvolvimento da cidadania plena, da promoção da garantia dos direitos, pilares da Assistência Social e da Segurança Pública.[22]

Portanto, promover saúde mental é responsabilidade de todos, não  apenas da educação, embora seja a educação o caminho mais adequado para desenvolvimento das habilidades que a promove.

Este é o caminho por meio do qual a ASEC pretende contribuir. Seu propósito é trabalhar para que no Brasil, toda criança e adolescente possa se fortalecer com ferramentas para manter sua saúde mental, para responder de forma adequada aos desafios atuais, no mundo real e virtual, e, consequentemente, impactar positivamente sua realidade e ajudar a promover sua visão: “Uma sociedade solidária e feliz”.  

 

Bibliografia empregada:

[1] CERQUEIRA-SANTOS, E. et al. 2014. Adolescentes e adolescências in  HABIGZANG, L. F. et al. Trabalhando com adolescentes: Teoria e intervenção psicológica. Porto Alegre, RS: Artmed.

[2] Baseados, entre outros, no trabalho de Richard Lazarus, importante pesquisador da área de estresse e promoção de saúde mental (vide LAZARUS, R. S. 1999. Stress and emotion: a new synthesis. Springer Publishing Company, Inc).

[3] CALIMAN, G. (org). 2013. Violência e direitos humanos: espaços da educação.  Liber Livro.

[4] CASASSUS, J. 2009. Fundamentos da educação emocional. Brasília: UNESCO, Liber Livro.

[5] LE BRETON, D. 2012. O risco deliberado: sobre o sofrimento dos adolescentes. Revista Política e Trabalho, Revista de Ciências Sociais, João Pessoa, n. 37, p. 33-44,  out.

[6] VAN DER KOLK, B. A. 2014. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking.

[7] Após ser testado e aprimorado ao longo de cinco anos, o programa foi implementado no Canadá para a faixa etária de 9 a 11 anos. No Brasil, um estudo piloto do programa, desenvolvido com mais de 700 crianças e jovens de diferentes cidades, indicou que a faixa etária mais adequada ao nosso contexto escolar corresponde ao 6º ano do Ensino Fundamental (10-11 anos).

[8] MISHARA, B. E DUFOUR, S. 2018. Randomized Control Study of the Implementation and Effects os a New Mental Health Promotion Programme to Improve Coping Skills in 9 to 11 Year Old Children: Passport: Skills for life. Artigo no prelo.

[9] Mishara e Dufour, 2018 e Mishara, B. s/ data. O conceito de ´coping´. Material não publicado.

[10] Bale, Chris. 2003. Early start to suicide prevention: children´s programme shows promising results. Suicidologi. Arg.8. Nr.2.

[11] Organização Mundial da Saúde. 2001. Relatório sobre a Saúde no Mundo – Saúde Mental: nova concepção, nova esperança. Disponível em: https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/relatorio-mundial-da-saude-2001–saude-mental-nova-concepcao-nova-esperanca.aspx. Acessado em agosto de 2018.

[12] Cerqueira, D. 2016. Trajetórias individuais, criminalidade e o papel da educação. Boletim de Análise Político-Institucional, n°. 9, jan-jun, pp. 27-35.

[13] Clarke, A. e Barry, M. s/ data. The link between Social and Emotional Learning and Academic Achievement. Disponível em: http://www.partnershipforchildren.org.uk/uploads/AcademicAchievement.pdf.pdf. Acessado em setembro de 2018.

[14] Mishara e Dufour, 2018.

[15] Vale ressaltar que a Metodologia de Capacitação de Professores da ASEC é reconhecida pelo MEC em seu Guia de Tecnologias Educacionais da Educação Integral e Integrada e da Articulação da Escola com seu Território 2013/MEC.

[16]  A ASEC realiza avaliações sistemáticas com os professores que desenvolvem seus programas, que incluem questões relacionadas ao desenvolvimento dos alunos e ao impacto dos programas no seu desenvolvimento pessoal e profissional.

[17] A ASEC possui representação exclusiva no Brasil para a implementação dos programas Amigos do Zippy, voltado para crianças de 6-7 anos, e Passaporte: Habilidades para a Vida para adolescentes a partir de 11 anos.

[18] Mishara, B. e Dufour, S. 2018.

[19] Centre for Research and Intervention on Suicide, Ethical Issues and End-of-Life Practices (CRISE) . Passport: skills for life. Em: http://www.passeportsequiperpourlavie.ca. Consultado em agosto de 2018.

[20] Mishara e Dufour, 2018.

[21] Idem nota 18.

[22] Argumentos  corroborados em estudos do economista James Hackeman e de Daniel Cerqueira do IPEA em “Trajetórias individuais, criminalidade e o papel da educação”

AndreaMonteiroAndréa Câmara Monteiro é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista em Psicopedagogia pela FAE Centro Universitário e Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública – Fundação Oswaldo Cruz. Foi coordenadora regional do Núcleo Paraná da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), e atualmente é monitora certificada desta instituição, atuando na capacitação de professores para programas internacionais de desenvolvimento de habilidades socioemocionais de crianças e jovens, além de facilitadora de cursos de educação emocional para profissionais da educação há oito anos.

 

 

Letícia SatoLeticia de Paiva Rothen Sato é graduada em Ciências Sociais (2000), pela UFPR,  especialista em Intervenção Cognitiva e Aprendizagem Mediada pelo CDCP (2014), mestre em Antropologia Social (2003) e especialista em Educação, Meio Ambiente e Desenvolvimento (2004) pela UFPR. Atuou em sua vida profissional como pesquisadora e docente e por cinco anos foi coordenadora regional da ONG ASEC (Associação pela Saúde Emocional de Crianças), responsável por programas de promoção de saúde mental. Atualmente é mãe de três, experiência que transcende e mesmo supera toda sua formação profissional e acadêmica.

 

 

Comunicar…

mae e filhoPor: Geovane Lopes

Comunicar-se pode ser algo muito desafiador para todos nós, especialmente quando se trata de nossos sentimentos e emoções. Entender, conhecer o que se passa dentro de nós, e conseguir falar sobre isso com as pessoas que fazem parte das nossas vidas, sejam elas do nosso ciclo de relacionamento mais íntimo pessoal ou profissional, pode ser uma tarefa muito difícil.

As dificuldades ligadas à comunicação dos nossos sentimentos podem estar relacionadas a alguns motivos, dentre eles, ao fato de não darmos a devida atenção ao que sentimos. Para que possamos expressar nossos sentimentos é preciso antes de tudo identificar e nomear o que se passa dentro de nós. Esta é uma importante habilidade que todos nós podemos desenvolver, e que as crianças que participam dos programas de Educação Emocional, têm a oportunidade de desenvolver desde cedo, o que impacta positivamente a sua Saúde Emocional.

Quando não percebemos o que estamos sentindo frente às diversas situações do cotidiano, podemos agir de maneira incongruente, ou até mesmo inadequada. Saber lidar de forma assertiva com as mais variadas situações que vivemos pode evitar consequências negativas e prejuízos significativos, que podem nos comprometer ao longo da vida.

Lembro-me de uma situação que pode ilustrar a ideia acima. Uma mulher ofereceu ajuda a uma amiga e a amiga, aflita, mergulhada em preocupações, sem se dar conta de seus sentimentos, recusou com certo descaso aquela que poderia ser uma ajuda providencial. Passadas algumas horas, a amiga desta mulher ligou para ela desculpando-se pelo modo como tinha reagido à sua oferta e esclareceu que, ao refletir sobre o modo como reagiu, percebeu que sentia vergonha.

Anteriormente, o fato de não ter reconhecido esse sentimento a fez julgar que a amiga lhe ofereceu ajuda para se sentir “por cima” e por isso ela a tratou com descaso. Ao se dar conta do sentimento, teve discernimento para conduzir a situação e aceitar a ajuda da amiga.

Encontrar uma maneira de se conectar conscientemente com o que acontece dentro de nós pode nos beneficiar, e até mesmo nos surpreender positivamente com os resultados. Isso porque, ao exercitarmos este simples processo, vamos colocando uma certa dose de “razão” nas nossas ações, orientando nossas decisões de um modo mais assertivo e consciente e, ao mesmo tempo, dando mais atenção aos aspectos particulares da nossa personalidade.

Outro hábito muito comum que temos é o de basear nossas escolhas e ações naquilo que julgamos que o mundo espera de nós, passando por cima do que sentimos e do que de fato queremos.

Recentemente, meu filho de quatro anos, após terminar de comer a sobremesa lavou o pote e a colher no lavabo de casa, mas, antes que terminasse, tomou uma bronca da mãe, que achou que ele estava aprontando. Ele saiu chorando sem entender de imediato o porquê da bronca; afinal de contas, ele quis chamar a atenção da mãe agradando-a com a louça lavada, mas, por outro lado, não era isso que a mãe esperava e aí tudo deu errado.

Quantos de nós fazemos as coisas apenas para agradar aos outros e nos decepcionamos com as consequências das nossas escolhas? Tudo porque muitas vezes agimos de acordo com aquilo que achamos que os outros esperam de nós, e não de acordo com o que queremos, sentimos e percebemos.

Compartilhar nossos sentimentos de forma assertiva pode ter um efeito muito positivo nas nossas relações interpessoais. Quantos de nós já vivenciamos ou presenciamos situações que despertam ciúmes, por exemplo? Diante destas situações, pode ser bastante comum reagirmos de forma automática, brigando, agredindo, ou tomando atitudes que podem nos prejudicar ou prejudicar o outro. Ser capaz de identificar o ciúme e a raiva, nesse caso, e falar sobre isso pode proporcionar a ambos uma comunicação mais saudável e satisfatória.

Muitas vezes, em situações desse tipo, falamos sobre o que julgamos ser certo e não comunicamos de forma verdadeira o que sentimos. Isso pode despertar em nós uma sensação de ansiedade e insegurança, por exemplo, o que, por sua vez, acaba desencadeando um ciclo, no qual o resultado na maioria das vezes não é nada agradável.

Esse ciclo pode nos levar a viver durante anos nos sentindo infelizes e insatisfeitos e, em certos casos, isso pode evoluir para doenças físicas e/ou mentais, impactar nossas relações interpessoais e até mesmo reduzir nosso rendimento profissional. E se estivermos desatentos, não perceberemos a real causa desse sofrimento.

Poucos de nós, quando crianças, fomos ensinados a nos expressar emocionalmente ou a nos comunicar de um jeito que fosse assertivo e ao mesmo tempo coerente com o que sentimos. Acredito que a maioria de nós foi estimulada a falar o que se “deve” e o que é “aceito”. Nossos pais falavam e alguns ainda falam: “você não pode dizer que está com raiva porque isso é errado”. Essa dificuldade de comunicação vai se refletir nas nossas escolhas, nas decisões que tomamos e até na definição do rumo de nossas carreiras.

Não exercitamos “considerar o que estamos sentimos”, seja nas nossas relações pessoais ou profissionais, muitas vezes ignoramos nossa intuição baseando nossas escolhas no que aprendemos “ser o certo”. Portanto, se nos observarmos com mais atenção, validando nossos processos internos como a existência de sentimentos e emoções, procurando integrá-los de forma consciente à nossa experiência, talvez seja possível viver de forma mais harmônica com a realidade e ficarmos mais alinhados aos nossos objetivos e ao que pretendemos realizar em nossas vidas.

A pessoa que se dedica a um processo de autodescobrimento e conscientização como este, pode promover uma conexão com sua verdadeira essência interior, integrando o que antes era desconhecido e não aceito por si mesma, e melhorando sua qualidade de vida, bem como suas relações interpessoais.

É simples, mas não é fácil, pois estamos habituados a ser e nos comportar do mesmo jeito desde criança. Essa mudança de rumo pode ser de dentro para fora, mas também pode se iniciar de fora para dentro, com ajuda e estímulo.

Os programas de educação emocional, por exemplo, são potentes recursos de autoconhecimento e de despertamento, que nos possibilitam tomar consciência dessa essência interior que devem nos nortear rumo a uma melhora significativa em nossas vidas.

IMG-20171207-WA0070Geovane Lopes é psicólogo há 13 anos. Atua na clínica com abordagem Psicodinâmica e Analítica com atendimento individual, casal e grupos. Na ASEC, atua como Monitor habilitado em formação de docentes para desenvolvimento de competências socioemocionais.

Brava, bravinha, esquentada!

angry-2191104__340Por: Daniela Selingardi

Brava, bravinha, esquentada… São vários os nomes usados na tentativa de enquadrar ou definir uma pessoa a partir de uma situação. É só um aspecto, mas a força de generalizar nos faz, por vezes, acreditar que “somos” e não apenas “estamos” bravos, furiosos, zangados… Pois é, normalmente as pessoas que criam “rótulos” não  perguntam os motivos, nem tão pouco refletem se foi o comportamento delas mesmas que os gerou ou o que teria contribuído para aquelas reações que agora viram rótulos.

Claro, que a ideia não é justificar o que sentimos em consequência da ação do outro, nem responsabilizar o mundo por reações inadequadas de algumas pessoas, mas, é necessário considerar o impacto em suas relações e escolher como agir. O fato é que, aprendemos a enxergar alguns rótulos como negativos nas outras pessoas, e por isso nos sentimos desconfortáveis quando percebemos que eles também estão em nós. Isso, por que seria “colocar luz”  em algo que tentamos esconder… Até a próxima vez que emergir.

Cada vez mais, vejo situações em que as pessoas se sentem desconfortáveis ao se sentirem rotuladas, e isso pode acontecer nas diferentes relações, seja de trabalho, familiar, com amigos ou com o par. Muitas pessoas passam por isso – E com o tempo o estresse vivido leva à exaustão, o sorriso vai embora, a produtividade cai e o corpo adoece.

Acompanhei de perto alguém que por anos enfrentou o rótulo de: “brava, bravinha”. Tentava se justificar ou se recolhia achando estar se excedendo. Perdeu o brilho nos olhos, o sorriso e o sono. Até que percebeu que, era chamada assim quando dizia o que pensava, por vezes de forma forte e clara, quando colocava limites e não concordava com desrespeito, negligência ou apenas fazia uma tentativa de mostrar aos outros o que sentia, pensava e sobre a energia que circulava por dentro dela, na tentativa de lidar com o que acontecia.

 Era a vontade de viver cada momento com vida e coerência, com seus sentimentos e pensamentos, era usar de transparência para se mostrar por inteiro e ser aceita como realmente era, pois assim se sentia viva.

 Desenvolver recursos para se sentir melhor, ter uma comunicação assertiva e melhorar os relacionamentos, são habilidades que podem ser aprendidas e nos levam a uma vida mais plena. Se quer saber como seu ambiente pode se tornar mais saudável e produtivo, fale com a ASEC. Oferecemos cursos e workshops para adultos, assim como os programas para crianças e jovens com comprovação científica de eficácia.

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Daniela é Psicóloga, Mestre em Psicologia escolar e desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da USP/SP e monitora certificada para formação de docentes em desenvolvimento de competências socioemocionais pela ASEC.

Você sabe o que é “banda estreita”? Saiba como ela pode ajudar as crianças a lidarem com seus sentimentos

olho no olho

Por: Tania Paris

 

Quem usa internet conhece bem as vantagens de uma banda larga. Ela permite o uso simultâneo do recurso de comunicação por múltiplos usuários. Podemos, inclusive, acionar a execução de mais de uma transação através de um mesmo computador. A banda larga é recurso para economizar nosso tempo.

Nosso tempo é um recurso precioso, não estocável, não recuperável. Seja por esse motivo ou outro, estamos aprendendo a funcionar como uma banda larga – atuamos em várias tarefas ao mesmo tempo. Quem é que dirige e durante o tempo do trajeto só dirige? As mães não “assoviam e chupam cana” só porque a boca não é banda larga. Mas arrumar a mochila das crianças enquanto cobram que elas estejam prontas e dá instruções para o marido e confere a mensagem que chegou no Whatsapp, tudo ao mesmo tempo, lá isso quase todas conseguem.

Aí, depois de todo o treinamento que temos para economizar tempo, chega o momento em que uma das crianças volta da escola triste. Nossa tendência é continuar atuando em “banda larga” e tentar “resolver” essa tristeza rapidamente – rapidamente porque existem muitas outras tarefas e problemas para dar conta.

Tristeza, frustração, decepção, medo… dos filhos não se “resolve”. Crianças que estão experimentando sentimentos difíceis precisam de acolhimento para reconhecerem e lidarem com o sentimento, para se desenvolverem emocionalmente. Uma mãe em “banda larga”, preocupada com outras coisas e com o sempre ligado celular, não é adequada.

Momentos como esse são excelentes oportunidades, se for possível virar uma chavinha e mudar para “banda estreita” = processamento de um só usuário. Desligar tudo, a cabeça principalmente, e estar totalmente voltada a facilitar que a criança se expresse e encontre, por ela mesma, seu caminho. A banda larga nos impulsionaria a dar-lhe soluções; a banda estreita permite a sabedoria de dar a ela o tempo de que precisa para desenvolver autopercepção e autonomia. A banda larga nos induziria a subestimar os sentimentos; a banda estreita nos proporciona condições de aproximação, diálogo, participação emocional na vida da criança.

Aos assuntos intelectuais, que tenhamos a banda mais larga possível; aos emocionais, que seja estreita a um único usuário – aquele a quem tanto amamos.

 

foto-tania-para-publicidadeTania Paris fundou a Associação pela Saúde Emocional de Crianças para dar oportunidades às crianças de aprenderem, desde muito cedo, a lidar com seus sentimentos e com as dificuldades da vida. “Amigos do Zippy” é um programa internacional de Educação Emocional, representado exclusivamente pela ASEC no Brasil, que é desenvolvido em escolas pelos próprios professores das crianças. www.az.org.br

Você já se sentiu sem saída?

girl-868783_960_720Por: Katia Negri

Você já passou por alguma situação na vida em que achou que não “daria conta” ou que desistiria de tudo, e no final conseguiu superar e encontrar caminhos para se reerguer e dar a “volta por cima”?

Muitos de nós temos uma ou mais histórias assim para contar, não é mesmo? Elas podem estar relacionadas à dificuldade financeira, separação conjugal, morte de alguém querido, problemas familiares, questões profissionais, situações que envolvam doença, entre outras. E, algumas vezes, vivenciamos várias dificuldades ao mesmo tempo.

Você já passou por isso? Sabe aquela fase difícil da vida, em que pensamos: “O que mais falta acontecer?”

Diante de tantas dificuldades, podemos nos sentir sobrecarregados e sem forças para seguir adiante, mas de alguma forma seguimos; de alguma maneira encontramos forças para lidar com todos os sentimentos desconfortáveis que nos machucam por dentro. Você já parou para tentar identificar o que nos impulsiona para frente, o que nos faz continuar e não desistir?

Existe algo que está dentro de todos nós e que muitas vezes só percebemos quando estamos diante dessas situações difíceis da vida. São os nossos recursos internos!

Cada um de nós nasce com a capacidade de desenvolver, de forma praticamente infinita, recursos internos para lidar com as adversidades da vida e com os sentimentos que elas podem gerar. Sabe quando nos lembramos de determinada situação e pensamos: “Nossa como eu consegui fazer aquilo”? “Como consegui lidar com a enorme tristeza que aquele evento despertou em mim”?

Conseguimos porque ao longo da vida vamos desenvolvendo em maior ou menor escala, nossa capacidade de lidar com as dificuldades. Isso quer dizer que todos nós sempre teremos recursos suficientes para lidar com qualquer situação desafiadora?

Não podemos afirmar que sim, mas sabemos que, quanto mais ferramentas tivermos, maiores serão as chances de nos sentirmos abastecidos.

Quer um exemplo prático?

Pedir ajuda pode ser um importante recurso diante de inúmeras situações desafiadoras em nossas vidas. Mas, para alguns de nós, pedir ajuda pode não ser tão fácil! Ou porque acreditamos que é sinal de fraqueza e incompetência, ou porque nos preocupamos com o que o outro pode pensar de nós, ou ainda porque não fomos estimulados a buscar o auxílio das outras pessoas.

Alguns de nós, depois de passar por certas circunstâncias em nossas vidas, pensamos: “Se não fosse fulano me ajudar, não sei o que teria sido de mim”. Mas, não podemos nos esquecer da nossa habilidade em pedir e aceitar ajuda, que combinada com a atitude positiva do outro, faz toda diferença.

E, nesse caso, podemos entender a palavra “ajuda” não somente para resolver o problema propriamente dito, mas existem muitas formas de receber e oferecer ajuda: ouvir o outro de forma empática e sem julgamentos, estar ao lado de alguém que está passando por uma dificuldade, mostrando importar-se com seus sentimentos, também são importantes maneiras de ajudar alguém.

Além de pedir ajuda, existem outros recursos internos, que quando desenvolvidos, fortalecem nossa Saúde Emocional. Encontrar formas de nos sentirmos melhor quando experimentamos algum sentimento que traz desconforto, a capacidade de nos comunicarmos com clareza e assertividade, a habilidade de buscar muitas estratégias para resolver um determinado problema e identificar qual é a melhor solução, são alguns exemplos de recursos e habilidades que podemos desenvolver ao longo da vida.

Você já parou para pensar se no seu dia-a-dia você inclui atividades e/ou pequenas ações e cuidados que contribuem para sua Saúde Emocional?

Independentemente de estar vivendo um momento mais delicado da vida ou não, ações voltadas para a promoção de nosso bem-estar podem enriquecer nossos recursos internos para que possamos lidar cada vez melhor com as dificuldades que enfrentamos agora ou que podemos vir a enfrentar no futuro.

Já pensou na possibilidade de seus filhos, sobrinhos ou alunos terem a oportunidade de desenvolver habilidades emocionais e sociais, e aumentar de forma significativa seus recursos para lidar com as dificuldades da vida por meio da Educação Emocional?

Sim, isso é possível e certamente contribuirá para o seu sucesso em várias esferas da vida! Acesse nosso portal e conheça nos cursos e programas: www.asecbrasil.org.br.

Qual o limite entre a gozação e o bullying?

pegadinha

Por: Tania Paris

A lei 13.185, de novembro de 2015, instituiu o Programa de combate à Intimidação Sistemática (bullying).

Segundo a mesma, bullying é todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Então, uma brincadeira que ridiculariza uma deficiência ou fraqueza de alguém só seria considerada bullying quando se tornasse frequente, certo? Dessa forma, se estivermos convencidos da necessidade de combater o bullying, deveríamos estar atentos para coibir essas brincadeiras quando estivessem sendo repetidas. É isso? Mas, repetidas quantas vezes? Qual seria a quantidade de vezes que indicaria um “farol amarelo”? E quando saber que já se tornou vermelho?

Há algum tempo atrás, escutei um pai orgulhoso contando sobre seu filho pequeno, inteligente e muito engraçado, que fazia gozações com colegas e vizinhos sob notório incentivo da família. Cheguei a mencionar a palavra bullying, mas a plateia que ria dos relatos desconsiderou meu comentário. Tecnicamente falando, eu estava errada. Mas não consigo esquecer aquela cena. Lembro-me dela com um título: como criar um intimidador.

Queria propor um novo limite entre a gozação e o bullying: a intenção.

Se a vítima se magoou com a brincadeira, o agressor que não estava mal-intencionado recua, pede desculpas, “se toca”, porque usa empatia para compreender o custo de sua diversão. Mas se a intenção tiver sido impressionar a plateia na base do custe o que custar… bem… Pais, vamos esvaziar essa plateia; vamos educar nossas crianças para que possamos todos viver num mundo mais saudável.

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Tania Paris fundou a Associação pela Saúde Emocional de Crianças para dar oportunidades às crianças de aprenderem, desde muito cedo, a lidar com seus sentimentos e com as dificuldades da vida. “Amigos do Zippy” é um programa internacional de Educação Emocional, representado exclusivamente pela ASEC no Brasil, que é desenvolvido em escolas pelos próprios professores das crianças. www.az.org.br

Frustração infantil e a importância de dizer não

birra

Por: Paola Centieiro

Outro dia deparei-me com uma cena, que acredito já ter sido presenciada por muitos de nós: em um supermercado uma criança se debatia no chão enquanto que uma mãe, constrangida, tentava calmamente conversar com ela e explicar o porquê de não poder levar o chocolate pedido naquele dia. Quantos de nós já não vimos ou, até mesmo, vivenciamos uma situação como essa, não é mesmo?

Ao observar aquela cena, logo pensei em quantos sentimentos estavam ali envolvidos, o constrangimento da mãe, a raiva da criança, e o que deve ter dado início a tudo isso, a tal da frustração.

Mas, afinal, o que é frustração?

Frustração é o sentimento que nos abate em decorrência da não realização de um desejo ou expectativa e, geralmente, vem de “mãos dadas” com muitos outros sentimentos, como a raiva e a tristeza. Apesar da frustração ser muito associada ao fracasso ou desilusão, ela é de extrema importância para o desenvolvimento emocional sadio.

Vivemos em uma era de imediatismos, rapidez e satisfação instantânea. Desde pequenas as crianças estão acostumadas a ter acesso a desenhos ilimitados em canais infantis e na internet, jogos ao alcance dos dedos em tablets e celulares, satisfação instantânea.

Lembram-se dos tempos de “outrora” quando tínhamos que aguardar, ansiosamente, pelos desenhos animados nos programas infantis matinais? Quando tínhamos que aguardar a visita de primos e amigos para termos com quem brincar com nossos jogos de tabuleiro, bonecos de ação ou para ter quem batesse a corda de pular no quintal de casa? Eram tempos em que recebíamos, diariamente, uma pequena dose de frustração! Aí está, a tal da frustração presente, desde cedo, em nossas vidas, não somente nos momentos de fracasso ou grande desilusão, mas em nosso cotidiano, nas pequenas ações diárias.

Como adultos sabemos que nem sempre poderemos ter o que desejamos, ou na velocidade em que desejamos, exigindo, muitas vezes, trabalho e dedicação para alcançarmos nossos desejos e objetivos. Assim, percebemos que as frustrações são parte inerente da vida adulta; conseguir encará-las e encontrar formas de lidar com o desconforto causado por elas são fundamentais para nosso crescimento interior e bem-estar emocional.

Na ânsia de ver nossos filhos felizes e realizados podemos acabar nos esforçando em atender a todos os seus desejos, acreditando que, ao negar-lhes algo, estaremos lhes causando sofrimento. Quando os pais tentam de todas as maneiras evitar qualquer tipo de sofrimento ou frustração da criança estão sendo imediatistas porque, poupando-os desse tipo de sofrimento, privam seus filhos de oportunidades de crescimento pessoal e de compreensão de mundo. O excesso de proteção pode, futuramente, resultar em adultos que não conseguem lidar com as frustrações cotidianas e adversidades da vida.

A cada situação de frustração vivenciada a criança aprende a encontrar uma forma de lidar com desconforto gerado pela negação do seu desejo, a perseverar em seus objetivos, a encontrar novos caminhos e superar adversidades. Nesse sentido podemos dizer que passar por situações de frustração abre espaço para desenvolver resiliência, também tão importante em nosso desenvolvimento social e emocional.

Pequenas doses de frustração são necessárias para que as crianças compreendam que a frustração faz parte da vida. Ao permitirmos que as crianças se frustrem algumas vezes contribuímos para que elas sejam adultos mais resilientes e compreensivos. O não é um ato de amor.

É comum que crianças pequenas chorem ou “façam birra” ao sentirem-se frustradas pelas primeiras vezes e sabemos como pode ser dolorido ver o sofrimento de uma pessoa querida por nós, mesmo quando sabemos a importância daquele momento. Voltando à imagem da criança no chão do supermercado reflito em quanto amor estava envolvido naquele “não” àquela criança, no esperar da mãe para que a criança se acalmasse e na conversa sobre os motivos de não poder levar o chocolate naquele dia.

Ao nos sentirmos apoiados quando nos frustramos, percebemos que “tudo bem” as coisas não saírem da forma que planejamos ou desejávamos, e “tudo bem” nos sentirmos tristes ou com raiva por conta disso.

Aprender, desde cedo, a buscar estratégias para lidar com o desconforto emocional que sentimos e encontrar formas de nos sentirmos melhor, mesmo em meio as adversidades é uma ferramenta importante, que pode ser uma poderosa aliada na hora de dizer não.

Lidar com os sentimentos desagradáveis é um dos pilares dos programas e cursos de Educação Emocional da ASEC.

Para saber mais, acesse: www.az.org.br

Paolitcha

Paola é professora, atuou durante 13 anos em turmas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, em escolas e instituições sem fins lucrativos. Desde 2014 atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças e como coordenadora do núcleo regional do Rio de Janeiro.