O mundo vivendo “dias de embarcado” em casa

Por Alexandre C. Monteiro

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Interessante como muitos de nós costumamos acreditar e levar a sério algum problema apenas quando começa a acontecer muito próximo de nós, com vizinhos, amigos, parentes e até nós mesmos, graças àquele importante mas menosprezado “não, não vai acontecer comigo”, que é praticamente inconsciente. Pois hoje o mundo e, talvez o Brasil pela primeira vez, está vivendo a realidade de se isolar em suas casas de forma tão incisiva, ameaçados por algo que não vemos. E pior, mata. Não a maioria, crianças, jovens, adultos, mas idosos ou aquelas pessoas ditas de risco, caso não tenham complicações como diabete ou outra doença.

Acabou que este isolamento social, tem levado a grande maioria das pessoas a viver uma experiência que os que trabalham “isolados” do mundo como embarcados em plataformas de petróleo, barcos de apoio, marinha mercante e até mesmo, refinaria conhecem bem melhor. Pois é, refinarias como a de Urucum, no Amazonas, não ficam isolados por mar, mas por uma mata tão densa que impossibilita “ir embora” se enjoar deste isolamento. Com mais de 14 anos embarcando em plataforma de petróleo de 80 a 200 km de distância da costa, diria que, como muitos que ainda trabalham também assim, estou adaptado. Mas sendo mais um a viver esta nova realidade de uma pandemia, comecei a pensar que curiosas semelhanças e diferenças existem entre a nossa realidade de embarcados e esta do isolamento social.

Uma das primeiras que vieram à minha cabeça foi em relação ao tempo. Lembro que assim que comecei a ouvir os comentários das primeiras pessoas que começaram a se isolar, como pessoas idosas, após próximo de uma semana, já estavam perdendo a paciência e queriam sair. Entre colegas do trabalho, circulavam comentários e postagens como “bem-vindo à vida de embarcado”, fazendo uma analogia do embarque com o isolamento social. Confesso que também pensei o mesmo, mas com o passar do tempo me dei conta de como seria mais difícil, já que a previsão de isolamento era grande e muito maior que nossa escala de trabalho, que varia de 2 semanas de embarque para 2 ou 3 semanas de folga. Talvez os que trabalhem em embarcações de apoio estejam melhor adaptados, visto terem escalas de 28 por 28, ou seja, 28 dias trabalhando e 28 dias folgando.

Outra questão também interessante, foi com relação ao espaço físico que cada situação permite. Durante nosso confinamento, para todos os lados que olhamos é uma imensidão do mar, com algumas plataformas à vista, outras que de tão longe parecem brinquedo até para os barcos de pesca que se aventuram a viajar até nossas unidades. Inegável também a possibilidade de ver os espetáculos da natureza, como pôr-do-sol, luas, baleias, golfinhos, tartarugas e cardumes de peixes grandes como placas prateadas gigantes na superfície da água. Bom, isso é esporádico e o comum é a imensidão do mar e os navios. Nessa nova realidade de “confinado” em casa, nos deparamos com os limites do nosso prédio, apartamento ou até mesmo um quarto para quem se contamina. Enquanto podemos ou até devemos andar muito nas plataformas, dependendo da função (navios têm em torno de 300 m de comprimento) e ainda interagir com os embarcados (podem incluir de 70 a 150 pessoas, aproximadamente); os confinados urbanos se limitam a encontros ao acaso com moradores do prédio ou apenas àquele que irá lhe entregar sua comida ou remédio.

 Apesar das diferenças, como as que citei, vejo semelhanças principalmente nos efeitos psicológicos que nos provoca tudo isso, como a ansiedade, cansaço mental e irritação. Suas intensidades podem variar de pessoa para pessoa por sua natureza, momentos que estejam vivendo. Mas com certeza, o isolamento social tende uma hora a provocar estes efeitos, já que não nascemos pra isso.

Às vezes perguntam se gosto de trabalhar embarcado, após contar um pouco sobre como é. Costumo responder que estou adaptado, como falei anteriormente. Como muitos agora, nunca passei por isolamento além do tempo de uma escala, talvez alguns dias à mais por cancelamento de desembarques, mas nada como a filha de uma prima na Itália, de 6 anos, que já está há mais de 3 meses em casa. Assim como a foto dela, em que ela parecia feliz tomando sol na sua varanda, também temos muitos bons momentos de brincadeiras e risadas. Demorei a aprender como tem valor isso, não apenas porque, assim como nos trabalhos normais, em terra, sofremos a pressão da produtividade, mas porque trabalhamos em cima de uma bomba, onde circula petróleo e gás sobre alta pressão. Pois é. Para ajudar um pouco osso isolamento, depois de trabalhar nossas 12 horas de turno nesse ambiente hostil, nossas horas de descanso são aliviadas com uma pequena academia, jogos, músicas com colegas de trabalho e umas horas de sono normalmente tranquilos. Salvo se não acordado por aquele colega de camarote que ronca muito ou um alarme na plataforma. Infelizmente, este caso pode ser mais difícil do que você apenas jogar um travesseiro no roncador. Uma situação de emergência, como um vazamento de gás ou princípio de incêndio pode te fazer pular da cama com um alarme de ambulância tocando no seu ouvido para que cada pessoa assuma seu posto no combate da emergência. Eh, ficar confinado em casa já não parece tão ruim, hein?

Dramas e brincadeiras à parte, em cada situação estamos sujeitos a lidar principalmente com nossos limites emocionais e até físicos. Acredito que muitas vezes a questão está em saber qual é nosso limite real e como lidar com eles. Muitos nem cogitam trabalhar em uma plataforma, outros embarcaram num dia e pediram para desembarcar no dia seguinte. Mas outros vivem até mais de 30 anos assim.  Salário melhor, estabilidade, boa folga atraem sim. Mas lidar com todos estes perigos e pressões psicológicas ao longo de anos, com ciclos de embarque e desembarque, também me fizeram buscar formas de encarar todos estes desafios da forma mais saudável possível. A busca pela diversão, seja com amigos, colegas ou sozinho; praticar atividades físicas (mesmo andando em média 5 a 10km por dia..rs), ler e estudar, ocupando a cabeça com coisas boas, principalmente, buscando manter o contato com amigos e família, ajudam a encarar o desafio de lidar e talvez até aumentar o limite psicológico para os efeitos do confinamento. Da mesma forma acredito que neste novo cenário de isolamento, a busca por manter o corpo e a mente em atividades saudáveis, sem insistir em manter o pensamento focado no fato de que “não posso sair de casa”, ajudam a nos dar mais serenidade nesses tempos de “embarcados”. O desafio continua e assim espero mais aprendizados, da mesma forma como os que tive ao longo desses anos de embarque. Agora, nova experiência. Embarcado em casa. Vamos em frente!

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Alexandre C. Monteiro, Químico Industrial e Operador de produção há 14 anos em plataforma de petróleo, atualmente no pré-sal na Bacia de Santos.

Ebook Tempo de Cuidar

Tempo de Cuidar

 

Nestes últimos meses estivemos imersos em um imenso ciclo de autocuidado, nos vimos “forçados” a cuidar melhor de nós e dos nossos, talvez de uma forma que nunca tenhamos necessitado antes. Foi necessário criatividade, resiliência e paciência para lidar com tantos desafios, tantos sentimentos…

Nossa equipe, durante esses meses de pandemia, uniu esforços para caminhar junto a cada um de vocês, buscando novas estratégias para nos sentirmos melhor, muitas vezes, através de palavras, textos, publicados aqui mesmo em nosso blog. Compilamos todos esses textos em um e-book,  Tempo de Cuidar, que agora disponibilizamos para download.

Que continuemos tendo Tempo de Cuidar, de nós, dos nossos, de todos… #vaificartudobem

Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro

Por Miriam Lamana

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O que acham dessa frase de Leonardo da Vinci?

Ela retrata muito bem esse momento, não é mesmo?

Meu convite é para criarmos estratégias que nos permitam nos manter próximos e conectados com as pessoas que amamos e queremos bem.

Que tal provocar conversas que ajudem a descobrir novas coisas sobre as pessoas com as quais se relaciona?

Ver esse momento como uma oportunidade de interagir dentro de casa e também nos encontros virtuais, promovendo reconexão e a abertura para o compartilhamento de histórias interessantes.

Relembrar momentos especiais em família e com amigos. Quais são os seus momentos? Quais os momentos dos que estão a sua volta?

Provocar risadas ao pensar no que cada um teria dito, se pudesse falar, no momento em que nasceu? Ou o que pode ter passado na sua cabeça quando viu um cachorro pela primeira vez? Ou o que seu cachorro, gato ou outro bichinho, diria para você, se pudesse falar?

Conversar sobre as preocupações que passam pela nossa cabeça e que nem sempre nos permitimos explicitar. Até mesmo com os pequenos, abrindo espaço para entendermos como estão vendo o mundo, não seria bárbaro?

Falar abertamente sobre nossos pensamentos, emoções e sentimentos, com as pessoas que amamos é uma estratégia para nos manter mentalmente saudáveis e não cairmos na armadilha de nos sentirmos só, mesmo com pessoas ao nosso lado e sim, mesmos que estejamos sozinhos, conseguirmos nos sentir plenos, pois ter uma rede de apoio é fundamental, não importa onde eles estejam.

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Miriam  Lamana. Psicóloga, com mais de 28 anos de vivência em organizações, com MBA em Gestão e Finanças e especializações em Coaching e desenvolvimento humano. Na ASEC desde 2012, como monitora na capacitação de professores em desenvolvimento de competências socioemocionais e na coordenação das atividades em São Paulo.

Contato: miriam.lamana@asecbrasil.org.br

O que aprendi com o Programa Passaporte: Habilidades para a Vida

Por Isabella Maria Valério

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Independentemente de quantos textos eu escreva, sempre será difícil começar qualquer um. Então, começo me apresentando; meu nome é Isabella, tenho dezesseis anos. A adolescência é uma fase complicada, em que, muitas vezes, não sabemos direito o que sentimos, ou como lidar com isso sem trazer novos problemas. É uma fase de descobertas. Descobertas de sentimentos, vontades, de opiniões… porém, não posso só falar do quão difícil foi — e está sendo —, sem dar o devido reconhecimento às coisas que fizeram parte de todo esse processo, me ajudando. E com “ajuda”, eu não quero dizer que tais coisas me trouxeram a resposta de tudo, muitas vezes me ajudaram implicitamente, de forma que eu mesma tive que descobrir a resposta.

Gosto de quem me tornei hoje, e vejo que é difícil saber os acontecimentos que me fizeram pensar como penso, que me fizeram ser essa pessoa, essa Isabella. Quando tinha doze anos, participei do programa “Passaporte – Habilidades para a Vida“, acredito que isso tenha contribuído muito com como sou hoje. Durante as aulas que tivemos dentro desse programa, estivemos sempre com o mesmo grupo de pessoas e, por mais que eu conhecesse algumas, era próxima apenas de duas meninas, o que limitava meu grupo social a elas. Ao participar das dinâmicas de encenação de certas situações, mesmo com vergonha, eu vi que poderia ser divertido interagir com outras pessoas da minha idade, isso tudo pelo ambiente que foi criado, de risadas, diversão e cooperatividade. Como ficamos juntos por algum tempo, ao fim do programa estavam todos mais unidos e soltos, isso me inclui.

Ter essa experiência num momento tão primordial da minha adolescência foi fundamental. Sempre fui uma pessoa mais introvertida, sabe? a que pede para outras pessoas irem comprar as suas coisas, a que fica quieta por medo de errar. Com o Passaporte, eu aprendi que errar é normal, e está tudo bem com isso. Essa é a parte que mais me emociona, de verdade, porque é algo que aparece muito no meu dia a dia. As notícias que vemos sobre aumento do índice de depressão e ansiedade, tanto quanto o aumento de casos de bulimia e anorexia são verdade. Os adolescentes, mesmo que sem tantas responsabilidades, são muito cobrados, e como são. Às vezes por eles mesmo, às vezes por outras pessoas. O que devemos pensar, é no reflexo que isso causa em todos nós, jovens: eu, que tenho pais preocupados comigo, tenho poucas responsabilidades e não sou cobrada para decidir logo o que quero fazer da vida, às vezes tenho momentos fortes de instabilidade emocional, de ansiedade, preocupação; podemos imaginar, a partir disso, a dificuldade que outros adolescentes também têm.

O Passaporte me ajudou em muitas coisas. Com ele, eu aprendi a deixar os meus instintos tímidos e minha vontade de não arriscar respostas de lado, eu me tornei outra pessoa. Na escola, por exemplo, ao apresentar um trabalho: eu não me cobro mais de saber tudo e não poder errar, eu levo isso de forma muito mais saudável comigo mesma, sou compreensiva comigo caso erre alguma parte. Me fez ter mais empatia, e isso é algo que me orgulha. Eu penso muito mais nos outros depois de ter participado do programa, penso muito mais nas consequências dos meus atos.

Descobri, depois de procurar bastante, coisas que me deixam bem comigo mesma, coisas que posso fazer para me sentir melhor. Mas, se fosse para resumir em poucas palavras, eu diria que o Passaporte me ensinou a amar. Me amar, amar o próximo. Cuidar dos nossos sentimentos é cuidar de nós mesmos, e nesse mundo de tanta cobrança da sociedade, tanta ilusão causada por redes sociais, é disso que a gente mais precisa. Amor, amor consigo mesmo, principalmente, mas também com o próximo.

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Isabella Maria Valério

Inventando a palavra onde não tem

Por Carolina Resende Gonçalves

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– Fulana(o) está arrancando cebolinha hoje!

Desde criança eu entendi o emprego dessa expressão. Eu sabia que arrancar cebolinha era uma coisa boa. Sabia como e quando se dizia que alguém estava arrancando cebolinha. Depois de alguns anos, eu entendi que essa expressão não fazia sentido pra mais ninguém além da minha família. Arrancar cebolinha se diz na minha família quando uma pessoa está muito feliz ou animada. Mas arrancar cebolinha não tem absolutamente nada a ver com o fato de uma pessoa estar feliz ou animada. A verdade mesmo, é que não faz o menor sentido. Eu demorei tempos para perceber isso e me despertar para uma pergunta-chave na investigação do meu próprio dialeto:

– Vó, o que é arrancar cebolinha?

Eu sabia o que era arrancar cebolinha. Eu sentia o que era arrancar cebolinha. Mas eu não sabia qual era, de verdade, a explicação para as palavras “arrancar” e “cebolinha” expressarem aquele sentimento que eu sentia. Caso não houvesse explicação, eu saberia que não havia explicação. Mas havia, sempre há. A história é assim: um primo de segundo grau, primo primeiro da minha mãe, era criança pequena. Minha bisavó (avó dele) chegou de viagem, de distâncias interestaduais, para uma visita. Ele ficou tão contente com a chegada dela que se viu em apuros diante da própria felicidade e, sem necessidade culinária, arrancou toda a plantação de cebolinha que a mãe dele tinha em casa.

Penso que arrancar a plantação de cebolinha foi uma estratégia muito inteligente do meu primo naquele momento: afinal de contas, o que fazer quando a felicidade não está cabendo dentro da gente? E do caso que foi, de causar risos, surgiu uma expressão. E a expressão virou um sentimento. Um sentimento conhecido na família. Um sentimento que até mesmo eu, nascida anos depois, sou capaz de experimentar.

– Deixa ela(e), que hoje ela(e) está arrancando cebolinha.

            Dizemos assim quando a felicidade está precisando de espaço. É porque mesmo quando a energia é alegre, ela pode trazer uma inquietação tão grande que chega a incomodar quem não se sente da mesma forma. Dizendo que a situação de alguém é caso de arrancar cebolinha: reconhecemos, comunicamos e damos o espaço que a felicidade está precisando naquele momento.

É bonito isso. E acontece. Pessoas reunidas são capazes de criar dialetos impressionantes. De se comunicarem com riqueza diante daquilo que vivenciam. De criarem palavras que, antes de serem, já eram em experiência. É cada invenção que se a gente não anotar ou registrar as palavras nascidas, corremos o risco de deixar elas perdidas depois. Esses dialetos surgem em relações diversas. Família é um desses lugares, mas tem outros. Tantos! É gostoso estar perto de pessoas que ativam a criatividade dos sentidos. Crianças são mestras invencíveis nesse quesito!

Nem sempre as expressões surgem de boas experiências. Existem aquelas que doem, que expressam o sofrimento daquilo que houve. As que nascem da dor também são bem-vindas, porque existem.

Saudade é palavra nossa, palavra do português do Brasil. Significa um sentimento que não tem sinônimo mas que, com esforço, cabe na explicação do sentir falta, do estar longe, do querer perto. Uai é palavra da gente que é mineiro, palavra do mineirês criada nos idos da inconfidência em Minas Gerais. Significa sentidos e sentimentos diversos, que variam conforme a entonação e o contexto, que vão da doçura à braveza. Arrancar cebolinha é palavra dos meus, palavra dos Resendes de Resende Costa, filhos e netos de Dona Vera. Significa aquilo que eu já falei e não preciso repetir. Crocodilar é palavra do meu Tio Beto, palavra dos filhos e netos da Dona Lourdinha. Significa tirar um cochilo ou ficar na cama, na horizontal, sem pressa de tempo. Boa noite vou dormir, é palavra minha e da Lívia, minha amiga com quem divido a casa e o isolamento social. Significa estar com o pé sujo por preguiça ou por acreditar que ele não está tão sujo assim.

Tenho um dicionário de expressões sem sentido. Tenho muitos dicionários de expressões que fazem todo o sentido na minha vida e na vida de pessoas que eu amo. Tenho um dicionário em branco, de expressões sem sentido que ainda vou criar porque sei que não cabem todos os sentimentos que eu experimento no espaço que o português me oferece hoje. Então, vou, junto, inventando espaços.

Tudo isso eu digo não para que faça sentido, mas para fazer lembrar desta riqueza que temos dentro de nós e dentro das nossas relações: a riqueza de criar, de inventar, de imaginar, de fugir um pouco dos sentidos prontos para refazê-los. São palavras com vida própria, que aparecem como um caminho possível para lidar com aquilo que surge da experiência entre nós e os nossos.

Haja dicionário para traduzir tudo o que se tem se passado com cada pessoa durante a pandemia. Será que ao final da quarentena ainda vou saber me comunicar com o mundo social? Será que vou saber dividir, em língua compartilhada, todos os sentidos da minha experiência de dias a fio dentro de casa? Será que vou entender, pelos meus sentidos conhecidos, os sentidos criados nas experiências diversas daqueles com quem eu irei conversar?

Haverá esforço para que sim. Se nos escutarmos bem, encontraremos sentidos. Ou não. Afinal de contas, quantos tantos dialetos estão surgindo neste momento?

Carolina Resende

Carolina Resende Gonçalves

Sou formada em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela UFMG, e colaboro com a ASEC desde o final do ano de 2019. Passei por experiências de trabalho nos campos da comunicação, educação, cultura e desenvolvimento social. Me especializei em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (ENSP/Fiocruz) e, neste ano, ingressei como mestranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz). Faço parte da rede de voluntários do CVV desde 2016. Mesmo não sendo mais moradora da cidade há alguns anos, digo que sou de Barbacena, Minas Gerais.

carolina@asecbrasil.org.br e carolinaresendeg@gmail.com

Quem poderia imaginar?

Por Miriam Lamana

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Quem poderia imaginar?

Quem poderia imaginar que um sinal de carinho e cuidado viria com o gesto de “esconder” o nosso sorriso? Quem poderia imaginar ver os lugares históricos e turísticos ficando vazios?

Estamos vivendo um momento histórico e mais complexo do que nunca! Estamos recebendo, na veia, o Mundo VUCA – no português, volátil, incerto, complexo e ambíguo. As demandas das organizações, das famílias e da sociedade nos desafiam. Tomar decisões, nesse momento em especial, requer coragem, consciência e disposição para encontrar novas formas de agir, de relacionar e de conduzir nossas rotinas.

Este é um momento em que falar sobre saúde mental e inteligência emocional se torna mais necessário do que nunca. O momento nos exige lidar com a complexidade e a quebra de uma rotina lotada de afazeres. Estávamos agindo automaticamente para dar respostas rápidas e sem tempo e agora podemos olhar para nós mesmos e entender o que cada vivência representava. As rotinas, o excesso de afazer e de responsabilidades, nos mantinham, muitas vezes, desconectados do nosso emocional, vivendo para dar conta das responsabilidades.

O fato é que os pensamentos e as emoções surgem de forma invisível e só acessamos se houver espaço para falar sobre isso. Quanto menos conversamos, mais criamos sombras dentro de nós e damos o “domínio” dos nossos pensamentos e emoções aos nossos medos e inquietudes.

Entender e aceitar que mudanças estão acontecendo em todos os setores da sociedade, facilita a reflexão de como agir agora e no futuro. Pense o quanto este momento nos propicia a expansão do entendimento sobre o que cada situação nos traz: o que quero para mim, para minha família, para a minha equipe de trabalho… O fato de estarmos vivendo tudo junto e misturado, onde o espaço de trabalho, estudo e convivência se misturam e dividem nossa atenção, nos força a criar novas rotinas para dar conta de todas as responsabilidades.

O que te parece este momento? Caos ou oportunidade para ampliar suas percepções?

Se mantemos nossa energia ancorada no medo e na negação, não conseguiremos enxergar as possibilidades de lidar com os novos fatos. A energia do medo ativa respostas automáticas de nosso sistema nervoso simpático, aumentando o cortisol – hormônio do estresse – gerando emoções desgastantes, como ansiedade, frustração e raiva. É importante acolhermos o nosso medo e não o negarmos.

Vou compartilhar com você um bom caminho para iniciar o diálogo com o medo:

De pé ou sentado, com as costas eretas, respire profundamente, sempre pelo nariz. Inale lentamente, contando até quatro, acompanhando a entrada do ar até abaixo do umbigo. Faça uma pequena pausa e exale bem lentamente, contando até seis. Faça isso algumas vezes.

A respiração feita dessa forma ativa o sistema parassimpático, produzindo hormônios que trazem sensações de calma e tranquilidade. O que acha de experimentar agora mesmo? Como está se sentindo?

Que tal agora buscar o que de positivo as situações que estamos vivendo podem nos proporcionar?

Pode ser útil e apropriado dar atenção aos nossos comportamentos, reações e sentimentos, lapidando-os para que possamos inspirar os que estão ao nosso redor. É uma oportunidade de aproximar o que quero ser daquilo que eu tenho e consigo ser, de expandir a capacidade empática e de compreensão.

Te convido a manter a consciência dos seus pensamentos, seu impacto no corpo, nas suas reações físicas e nos sentimentos. Ter mais atenção ao que acontece com você mesmo e mais consciência sobre a importância de ser gentil consigo e com o outro. Te convido a se perguntar sobre como quer se lembrar deste momento. Quais sentimentos quer gerar no futuro, ao se lembrar deste período? Temos a possibilidade de escolher isso agora. Uma bela oportunidade, não é mesmo?

Podemos escolher o que vamos alimentar: se é o medo e a incerteza ou se é aquilo que está bom e bem, as oportunidades de convivência, as novas rotinas, a alegria e a celebração da vida. Podemos escolher olhar para essas descobertas e para beleza de ver as pessoas unidas para um mesmo fim.

Conversar amplia e nos ajuda a entender os impactos das nossas ações e, assim, fazer escolhas mais conscientes. Ser objeto dessa reflexão, conectando-nos com as nossas práticas para, ao estarmos bem, sermos influência positiva para os que estão a nossa volta.

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Miriam Lamana, psicóloga com mais de 28 anos de vivência em organizações, com MBA em Gestão e Finanças e especializações em Coaching e desenvolvimento humano. Na ASEC desde 2012, como monitora na capacitação de professores no desenvolvimento de competências socioemocionais e na coordenação das atividades em São Paulo.

Contato: miriam.lamana@asecbrasil.org.br

De que forma você lê o mundo e escreve nele a sua história?

Por Katia Negri

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Os olhos dele brilharam e de repente ele me olhou fixamente depois de ler uma pequena palavra, respiramos juntos, e pude experimentar novamente aquela sensação indescritível. Ser testemunha de uma das descobertas mais lindas e importantes da vida de uma criança renova as minhas forças, reaviva a esperança e me enche de energia.

Como professora e apaixonada pela alfabetização, vivi essa sensação inúmeras vezes, e sempre me emocionei em todas elas, lembro-me que no percurso de retorno da escola para casa, pensava: “e mais um descobriu que pode ler, escrever, desenhar, viver, ser….” Pode SER com letra maiúscula, porque não se trata de decodificar letras e sons, mas de confiar em si mesmo, de se permitir, de ter a coragem de segurar nas mãos da professora e não soltar, mesmo quando às vezes a proposta parecia desafiadora demais. Era preciso transpor o desafio para ganhar de presente a sensação de conquista, que geralmente vinha acompanhada da frase: “Eu sei ler”! É claro que os abraços e as comemorações, algumas vezes com lágrimas nos olhos, faziam parte do momento “ser”, que naquele instante significava eu sou capaz, eu posso, eu consigo.

Sou profunda admiradora da psicóloga, pesquisadora e escritora argentina, Emília Ferreiro, que desvendou os mecanismos pelos quais as crianças aprendem a ler e escrever.

Algumas de suas citações sobre o processo de alfabetização possibilitam reflexões que, a meu ver, podem ir muito além da aquisição da leitura e da escrita, e nos convidam a ler o que está “dentro de nós”.

A vida e os seus processos, o passo a passo que está tão presente no nosso desenvolvimento humano também está presente em sua narrativa, quando diz por exemplo, que as primeiras tentativas de escrita já não devem ser vistas como rabiscos, mas são de fato uma espécie de escrita. Emília Ferreiro defende a ideia de que a criança começa a escrever desde que faz os primeiros rabiscos, para nós podem ser rabiscos, mas para ela é o processo de escrita nascendo, acontecendo! Rabiscar é escrever!

A partir dessa ideia, quero compartilhar aqui algumas perguntas que fiz a mim mesma e que hoje gostaria de fazê-las a você, para que possamos juntos ler o que vai dentro de nós.

Vamos começar pelos “rabiscos”? Será que algumas vezes enxergamos as coisas em nossas vidas como “rabiscos”, algo sem importância?

Preciso dizer a vocês que fiz isso em várias ocasiões em minha vida, me lembro por exemplo, quando estava aprendendo a fazer crochê e achava que os meus primeiros pontos eram algo totalmente disformes, quando na realidade eram os meus “rabiscos” nascendo. Mas, eu não me permiti amá-los e viver a sensação do: “Eu sei ler”. Invés disso, critiquei-me duramente, neguei o meu processo, não reconheci minha conquista e com isso perdi a chance do brilho nos olhos, do abraço em mim mesma, e da comemoração pelo Ser capaz.

Reconhecer que os “rabiscos”, que as vezes podem ser chamados de erros, fazem parte da construção do nosso processo de desenvolvimento, nos abre um capítulo novo no livro da vida, um lugar de valor, de aprendizado, de amor próprio.

Um desafio que gostaria de propôr para nós a partir desse texto, é a tentativa de deixar de lado o “piloto automático”, a busca pela perfeição, e mergulhar nas memórias e aprendizagens da criança que fomos. Talvez possamos encontrar frases como: “Professora eu já sei ler.” “Mãe eu consegui amarrar o tênis”. “Pai deixa eu te mostrar como eu já aprendi a andar de bicicleta.” E o convite aqui é para que possamos deixar a sensação potente da descoberta e da conquista tomar conta da gente de novo!

Você já parou pra pensar que podemos manter essas experiências vivas dentro de nós quando “lemos” o mundo que amanhece todos os dias diante dos nossos olhos?

Quem sabe se ao estabelecermos essa conexão profunda conosco, seja possível descobrir um novo jeito de fazer a leitura da vida e escrever a própria história, valorizando nossos “rabiscos” enquanto professores, pais, filhos, amigos. São os “rabiscos “, que fazem parte da nossa construção, dos nossos processos. Assim, quando nossos olhos brilharem de novo, poderemos nos abraçar e experimentar a sensação do: eu sou capaz, eu posso, eu sei lidar.

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Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@asecbrasil.org.br

 

Tempo

Por Eline Câncio

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Quanto tempo o tempo tem?… Me lembro menina, declamando este pequeno trava-língua para meu pai amado. O tempo passou, hoje não sou mais menina. Hoje, meu pai não está mais aqui. Mas ficou uma grande lição: o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem. Vamos ver.

Qual é o tempo de plantar? Tem momento certo, vocês sabem? Por exemplo, o melhor momento para se plantar as sementes de goiaba é na época da chuva e pode levar até dois anos para a fruta surgir. Nossa, tempo, né? E é muito importante pensar, para quem tiver interesse no plantio de goiabas que o solo precisa estar preparado para receber estas sementes: arar, adubar e cuidar da umidade deste terreno serão ações importantes para se colher uma excelente fruta. Quanto ao clima, goiabas gostam de sol, não muito a ponto de secar seu solo, pois elas também gostam de solo úmido. Então, se você morar em região muito quente, terá que irrigar sua linda goiabeira mais vezes. Cuidar! Simples assim… Cada dia um pouquinho!

Quanta semelhança conosco, vocês não acham? Nossos pensamentos são como as sementinhas de goiaba. Eles também precisam de solo fértil para se desenvolverem. Precisam de adubo e contínuas ações para se manterem. Nos empenhamos muito para que um pensamento permaneça presente em nossa vida. E, muitas vezes, fazemos isso sem perceber. Mantemos pensamentos desoladores, tristes, que nos incapacitam, que trazem medos, angústias e nem nos damos conta que estamos ali, arando e adubando o solo mental para o florescimento destes pensamentos ruins. E por que são ruins? Porque eles não geram frutos que nutrem o nosso melhor. Porque eles não nos elevam a novos patamares existenciais. Porque eles não nos fazem florescer.

Vamos aproveitar o tempo para cuidar do nosso solo mental com a melhor terra possível, através de bons livros, boas músicas, boas conversas… Vamos adubar com nutrientes de carinho por nós, pelos nossos e pelos outros. Vamos deixar que a luz entre e aqueça o necessário para que a semente de bons pensamentos possa ser fertilizada. E isso podemos fazer através de ações que nos tragam alegrias, seja dançar, cantar, pintar, desenhar, cozinhar, jogar, estudar, auxiliar alguém… Vamos irrigá-lo diariamente com um propósito de sermos melhor a cada dia.

Qual é o tempo para as sementes florescerem? Cada um descobrirá o seu tempo. Te convido a tentar, vamos?

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O respeito pelo ser humano e o amor às crianças norteiam minha carreira profissional. Com dedicação e estudo constante no processo de aprendizagem humana, em programas internacionais de educação socioemocional e na psicologia positiva, me dedico com afinco para que crianças e jovens possam se desenvolver cognitivo e emocionalmente de forma plena.

Eline Câncio é psicóloga, psicopedagoga e neuropsicóloga.
CRP 04/14943
Mora em Belo Horizonte – MG
Contatos: eline@asecbrasil.org.br

 

O baile do Home Office em tempos de quarentena

Por Katia Negri

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A planilha está aberta, um gole no café frio, e ouço minha filha chorar na cozinha porque não quer tomar o leite, mais uma respiração profunda…. É só home office, nada diferente do que estou acostumado, meu trabalho se transportou para minha casa, é só isso! Começo a buscar concentração e analisar os primeiros números, e os latidos incessantes do cachorro da vizinha me tiram completamente de órbita. Volto à estaca zero, parece impossível que algo que considerava tão simples seja tão desafiador agora para mim.

Conversando com alguns amigos por Skype, ouço que somos privilegiados, que podemos trabalhar em casa, no conforto do nosso lar. Nunca a #ficaemcasa foi tão utilizada, mas, para mim, ela é quase um sinônimo de #PorqueMeSintoMalEmTrabalharEmMinhaPropriaCasa? Geralmente não tenho coragem para dizer o que sinto, já que as afirmações sobre os meus privilégios e inegáveis boas condições, se comparados àqueles que não podem estar em casa, são evidentes. É como se eu estivesse dividido em duas partes: uma delas reconhece que sou um “cara de sorte” por ter emprego, poder trabalhar em casa, no conforto do meu lar, mas a outra…. A outra é a minha verdade oculta, aquela que me mostra o que às vezes não quero ver! Sou um homem de números, de probabilidades e estatísticas. Sensações e desconfortos não fazem parte do meu mundo profissional, milimétricamente calculado e pragmático. Mas elas, as sensações, batem à minha porta, me desviam o olhar, me tiram de circulação e me distraem o tempo todo. Estava pensando e tentando entender: Porquê, no escritório, apesar das distrações frequentes, essas sensações não me rondavam como a sombra da morte ronda o moribundo? Por lá, cada coisa tinha seu lugar, o grampeador de papel dentro da primeira gaveta, meu carregador de celular em cima da mesa, meu computador com uns post-its e lembretes, algumas planilhas impressas (porque ainda sou das antigas), meu café e tudo mais que fazia parte do balé perfeito que eu dançava todos os dias. Sinto falta daquela dança, do encaixe perfeito do meu corpo naquela cadeira amaciada por mim, do café quente que tomava entre uma olhada e outra na tela, do perfume das pessoas que trabalhavam próximas a mim. Eram velhas sensações, como objetos antigos que ninguém pensa em tirar do lugar, porque parece que foram feitos para aquele cenário.  E os ruídos? Eles eram como um combustível para mim, o som da impressora, o salto do sapato das meninas, a risada alta do amigo “gente boa”que se senta ao meu lado, tudo tão familiar. Talvez mais familiar que minha própria casa, mais familiar que os ruídos do meu lar, que hoje me causam estranheza e desconforto ao trabalhar.

Agora, estou diante do novo, do desconhecido, do privilégio, que eu particularmente prefiro chamar de oportunidade. Oportunidade de olhar para minhas sensações como genuínas e verdadeiras, olhar para meus sentimentos como naturais. Tudo bem se tenho privilégios,como alguns gostam de dizer, mas isso não me faz ser imune nem ao vírus nem aos sentimentos e desconfortos! Com todas essas incertezas e mudanças, tenho a oportunidade de ouvir o barulho que vem de dentro de mim. E esse, confesso, silenciei por muito tempo. E, por fim, com a suspensão das “aulas de balé” do escritório, vou me permitir dançar “outros ritmos” em casa (garanto que existem sons dos mais diversos), na companhia de pessoas que amo e que também chamo de família. E as planilhas? Ah, os números sempre sabem o que fazer!Depois de cuidar de mim e das minhas emoções,certamente terei êxito ao me relacionar com eles novamente!

Enquanto isso, segue o baile!

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Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@asecbrasil.org.br

 

“Dia Mundial da Saúde” em tempos de corona vírus : refletir e agir para saber lidar 

Por Juliana Fleury

“A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba”, escreveu nosso querido escritor João Guimarães Rosa, que era também médico e diplomata.

Como moradora do Rio de Janeiro, vi o novo ano começaraprendendo a lidar com a crise da água – nosso ouro azul. E quando ainda estava absorvendo a situação, vendo a enorme disputa pela compra de água mineral, fui engolida pela mais grave crise da saúde global, na contemporaneidade, a pandemia gerada pelo novo corona vírus. Com ela, o grande desafio foi aderir ao único remédio disponível no momento e, que igualou a todos: a imposição do isolamento social. Com ele, foi-se parte da minha liberdade.

Água de boa qualidade, saúde e liberdade. Como Rosa foi capaz de prever que nos fariam tanta falta? Nosso bemestar físico e mental estão, pela falta deles, comprometidos. Quando, em pleno século XXI, repletos de tecnologia com o advento da inteligência artificial, perdemos acesso a esses elementos essenciais para nossa saúde: água e liberdade, nos sentimos ameaçados e somos colocados, à força, a sentir e reconhecer o valor de ambos.

Hoje comemoramos os 70 anos do Dia Mundial da Saúde. Criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com objetivo de destacar a importância de ampliar a visão do mundo e de seus habitantes no que diz respeito ao que consiste em “estar saudável” e a “ter saúde”.

Estabelecido em 1948, apenas em 7 de abril de 1950 seu nascimento entrou para o calendário. A 2ª guerra mundial tinha sido superada há poucos anos, ao custo de 70 a 85 milhões de mortos, cerca de 3 % da população daquela época estimada em 2, 3 bilhões de habitantes. Havia, desde então, por parte dos 51 países que compunham a também recémcriada “Nações Unidas, hoje com 193 participantes, uma preocupação coletiva em preservar vidas humanas. Isso só seria possível evitandoconflitos e crises, e focando na promoção da saúde plena.

A despeito de ter uma única data para comemorar o Dia Mundial da Saúde, a cada ano a OMS estabelece um tema para ser trabalhado, dentro do contexto da saúde. Já tivemos o ano da segurança alimentar, da depressão, da saúde para todos e da cobertura universal de saúde. 2020 se tornou o ano de apoio aos trabalhadores da saúde, com foco nos profissionais de enfermagem: nas enfermeiras, já que 70% delas, no mundo, são mulheres e estão na linha de frente do combate do novo coronavírus, em busca de preservar vidas, com saúde.

Mas o que sabemos sobre o que é saúde?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Em 1948 quando o conceito foi definido, já trazia em si, uma abordagem interdisciplinar. Já estava claro que era essencial olhar o todo, o integral, nos mais diversos aspectos. se apontava ser preciso envolver a participação de diferentes setores da sociedade para que a população global atingisse sua saúde plena. Um desafio em 1948 e de custo imensurável nesse momento, quando somos cerca de 8 bilhões de habitantes. Vivendo a pandemia do novo coronavírus, entendemos cada vez mais, como indivíduos, que o “estado de completo bem-estar” é um permanente desafio, um sonhado equilíbrio, no dia a dia, entre todos os aspectos das nossas vidas.

Estamos num momento de quebra de paradigmas, desconstruindo conceitos, e não seria saudável ficar presos a eles. É fundamental entender o que trazem como reflexão e o que construímos a partir disto.

Sei que não estou sozinha nesse processo e, por isso, te convido neste Dia Mundial da Saúde a estarmos juntos em três atividades. Faça sozinho ou, se motivar, convide suas crianças, seus adolescentes, seus idosos, enfim sua família, se estiverem compartilhando o mesmo teto com o desafio de conciliar ambiente escolar e o mundo do trabalho:

1. Explorar o Conceito de Saúde no vídeo que a ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças (@asecbrasilong) desenvolveu para uso em suas atividades, baseado no conceito da OMS, e que compartilho aqui

2. Promover, após o vídeo, caso se sinta motivado(a) em ir adiante, duas reflexões:

O que era ter saúde para você, até algumas semanas atrás?

O que é estar saudável hoje, em tempos de pandemia?

Acredito que o processo de reflexão é mais importante do que as respostas em si. Estamos, como sociedade, acostumados anos exigir respostas para tudo, a controlar tudo. Estamos diante de um contexto onde não há respostas e o controle está no simples ato de nos privarmos do ir e vir, para salvar as nossas e muitas outras vidas. A “saúde”, nesse momento, está condicionada a não termos liberdade. É preciso aceitar o #ficaemcasa. Nos fixarmos em apenas buscar respostas pode ser uma trilha desagradável. Vamos certamente nos frustrar, desmotivar e adoecer. Ao passo que refletir pode ser apenas um exercício de abertura, que nos dá oportunidade para pensar sobre o que é realmente significativo para cada um de nós, em diferentes momentos.

3. Para finalizar, convido você a percorrer uma trilha voltada a para saúde emocional que postaremos também a seguir, focada no Promover para Prevenir em tempos de coronavirus. Ela se inicia no processo de exercitarprimeiramente o saber lidar com nossos sentimentos, identificando-os, acolhendo-os sem julgamentos. Em seguida,propõe fazer algo para se sentir melhor, sem nos prejudicar ou prejudicar aos outros. Identificar quem pode ajudar, quando você precisar e, saber que buscar ajuda, numa rede de apoiosegura, é fundamental não o diminui em nada. E se tudo estiver bem, se fazer útil para apoiar alguém é uma atividade que também promove saúde emocional.

Quando eu como cidadã fui demandada, de um dia para o outro, a lidar com a falta de água, em seguida com a falta de saúde e com a privação de liberdade, vi a importância de me conectar com o processo contínuo do promover minha saúde emocional para prevenir meu adoecimento, hoje e sempre, confiando de que tudo isso vai passar.

Sábio era Guimarães Rosa. “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba”. E assim seguimos cuidando de nós, dos nossos, para cuidar dos outros e salvar-nos todos, testemunhando na história o Dia Mundial da Saúde 2020 regido pelo #FicaEmCasa e apoie nossos heróis da saúde.

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Sou Juliana Fleury e lidero, desde 2018, a Associação pela Saúde Emocional de Crianças – ASEC, uma organização da sociedade civil, fundada por voluntários visionários do CVV. Quem em 2004 iria implementar uma ação para promover o exercício da vida plena, pensando no mundo do futuro? Atuamos, desde 2004, na promoção da saúde mental, emocional e social de crianças e adolescentes, capacitando adultos, educadores e famílias, em ambientes escolares e no mundo do trabalho, para desenvolverem habilidades para a vida, com base em metodologias ativas baseadas em evidências. A ASEC e sua equipe acredita que conectar o indivíduo a sua felicidade é promover o desenvolvimento de suas habilidades do “saber lidar” de forma positiva, consigo mesmo, com os outros e com os desafios da vida, para que possa exercer sua cidadania plena e ativa e faz disso sua missão para construir “Uma Sociedade Solidária e Feliz”, hoje e sempre.
Se quiser falar comigo meu e-mail é jufleury@asecbrasil.org.br.