Arquivo da categoria: Uncategorized

O que é o amor, onde vai dar?

Por Ana Lucia Machado Maia

EFAEA425-1876-42E5-BABB-7F2FE65EAC35

“O que é o amor, onde vai dar?”

O poeta Caymmi na canção diz: “O que é o amor, onde vai dar” ? É sobre o amor que eu vou falar, não é uma história cheirando a mar, mas que bateu forte em mim.

O quanto realmente estamos disponíveis para o amor? Pois é, parece até que a pergunta é absurda, muito responderão, estamos disponíveis, somos constituídos para amar.Concordo, mas, muitas vezes, devemos realmente estar conscientes dessa disponibilidade.

Durante uma aula para minha turminha do 7 ano, observei uma aluna muito acuada, ela sempre muito ativa, comunicativa, naquele dia estava retraída. Deixei-a no meu radar, só observando se algo diferente estaria por vir. Na metade do horário, aproximadamente, ela se levanta e dirigindo-se a mim diz: professora, não estou me sentindo bem. Eu disse ok, peguei em sua mão, gelada. Então ela disse:  – preciso sair da sala agora.

Nesse dia, felizmente, eu tinha um aluno regente em sala, pedi que acompanhasse as atividades, segurei sua mão e saímos da sala.

Para o meu espanto, ela estava entrando numa crise de pânico. No corredor da escola, encostada na parede, vi aquela criaturinha doce e sempre muito alegre, ao prantos dizer que sofria de ansiedade, que se não saísse naquele momento, iria explodir. Fiquei segurando suas mãos e pedi que respirasse comigo um pouco, o choro dela era copioso, revelando um profundo sofrimento. Preocupada, conduzi-a até o atendimento psicológico da escola. Chegando lá, porta fechada, nenhuma profissional para atendê-la, então, era comigo, eu deveria ficar ali e ajudá-la. Não haveria outra alternativa a não ser estabilizá-la até que alguém chegasse.

Nós sentamos, uma ao lado da outra, e comecei a ensiná-la a respirar, focar sua atenção apenas na sua respiração, fazendo com que sua frequência cardíaca desacelerasse e assim fizemos, respirando de olhos fechados, concentradas até a crise ir passando. Quando estava um pouco mais estável, ela começou a me contar sobre seu problema. Eu ouvi com atenção, mas ponderei que era minha obrigação comunicar à escola e, consequentemente, à família para que ela fosse auxiliada por um profissional qualificado.

Pedi que ligasse para sua mãe vir buscá-la e, assim, a escola poderia contar o que ocorreu. Para minha surpresa, ela disse que a mãe já sabia e que estava sendo orientada por um psicólogo. No entanto, o que mais me surpreendeu foi o que me revelou: – não vou ligar professora, porque ela está no trabalho e não poderá vir e quando eu estou assim em crise e ela me vê triste, diz: – Oh filha, não chora, não fica assim que se eu vejo você chorar eu também não aguento e choro. Eu paralisei. O que aquela menina de 12 anos, sofrendo de ansiedade estava me dizendo era que sua mãe não consegue se controlar quando a vê em crise. A mãe mergulha com a filha no desespero e de mão dadas. Ela estava ali me contando que diante de sua fragilidade ainda tem que lhe dar com a fragilidade de sua mãe. Não soube o que dizer. Fiquei em silêncio. E foi um silencio para mim profundo e reflexivo. Percebendo-a melhor, mais estável, perguntei se poderia voltar à minha sala de aula, se ela ficaria bem sentada ali aguardando alguém da equipe psicológica chegar.

Voltei confusa para minha sala de aula, porque aquela situação me convidou a pensar muito sobre como nós, pais, aí me incluo, estamos realmente disponíveis para o amor. Sei que essa mãe ama profundamente sua filha, seique a dor que sente vendo sua filhinha sofrer deve ser extrema, mas urge que tenhamos uma ação consciente do que é o amor, de estarmos vigilantes a todo o momento sobre como vamos agir e o que vamos dizer quando alguém que amamos profundamente passa por problemas emocionais. Estar disponível para amar significa ação consciente, fazer uma autoanalise e descobrir no seu íntimo, pai e mãe, se possui os “instrumentos” necessários para enfrentar ao lado dos seus filhos todos os desafios e se não os têm, faz-se necessário educar-se, educar suas emoções e assim permitir que o amor possa estar presente, não apenas nos momentos bons, mas, sobretudo, nos não tão bons.

Para amar o outro é preciso se conhecer também, amar é doação e cura. Quando o poeta pergunta, “o que é o amor, onde vai dar”? Ele potencializa o significado do amor, ele diz, você não sabe o que o poder do amor pode te levar a fazer, então, prepare-se.

Defender a educação socioemocional nas escolas é mais do que tarefa da ASEC, porque educar os professores, quese encontram despreparados para enfrentar essa crescente demanda de alunos que não conseguem dialogar com suas famílias sobre seus problemas, pelas mais diversas razões, é um dos pontos de conexão dessa grande rede de saberes que habitam a escola. Neste caminhar de crianças para adolescentes muitas mudanças ocorrem e eles devem aprender a reconhecer seus sentimentos e estabelecer uma posição crítica e consciente sobre as ações a si mesmos e também sobre os outros. Por outro lado, educar a escola, sim a escola precisa ser educada também, significa que essa deva apresentar alternativas de convivência em seu espaço e, sobretudo, abrir a comunicação com as famílias sobre temáticas emocionais. E por fim, não menos importante, dialogar com os pais, que se encontram tão ou mais perdidos que os próprios filhos. Logo, se um filho pede socorro ao pai ou a mãe, por amor, eles devem se fortalecer para ancorar seu filho ou sua filha. É importante lembrar que a vida real não são aquelas postagens feitas nas redes sociais. Na vida real, é necessária disponibilidade para amar.

A ASEC vem realizando um lindo trabalho com crianças e adolescentes, fazendo-as despertar para esse autocuidado, fortalecendo-os para esse mundo tão desafiador.

Autoria: Ana Lucia Machado Maia, de Recife – PE, mãe e professora. Implementou, em 2019, o Programa Passaporte: Habilidades para a vida para um grupo de adolescentes e testemunhou despertares para o autocuidado.

14A8BE94-4AE1-4201-9E67-F928A9144999

A diferença entre a afetividade e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais

Por Eline Câncio

613515-PNJAKA-284 14A8BE94-4AE1-4201-9E67-F928A9144999

Uma professora muito acolhedora e amorosa, prof.ª Márcia, tem um querido aluno que perdeu a mãe. Desde o acontecido, seu aluno está ausente das aulas. Hoje, uma semana depois, ele voltou a escola. Chegou com olhos marejados, um pouco ensimesmado, mais calado e quieto. Ao vê-lo e sabendo o porquê de tudo aquilo e já tendo conversado com a turma sobre o acolhimento que o colega talvez precisasse, ela foi logo ao encontro dele, dizendo:

– Olá Pedrinho, você está triste com tudo o que aconteceu, né? A gente fica mesmo. Deixa eu te dar um abraço. Hoje você vai ficar bem pertinho da professora. Qualquer dúvida ou dificuldade que tenha, eu ou algum colega te ajudaremos. Uma colega logo levantou da cadeira, segurou a mão do Pedrinho e disse que todos iriam ajudá-lo.

Não há dúvidas que esta história fala sobre afetividade, sobre acolhimento e carinho, características tão importantes na relação entre professor e aluno. Quando falamos de afeto, estamos abrindo caminho para o encontro verdadeiro entre duas pessoas. Abre-se também boas oportunidades de desenvolvimento da autoestima do aluno, facilitando, e muito, seu aprendizado.

Há momentos em que o aluno traz para a sala de aula problemas que o professor não sabe o que fazer ou como lidar. Nestas horas, o afeto é uma grande estratégia para unir, acolher e apoiar.

Mas, quando estamos falando do desenvolvimento de habilidades socioemocionais, devemos considerar o afeto como o caminho natural em que todos nós podemos nos relacionar uns com os outros. Porém, são ações diferentes.

Proponho que analisemos a fala da prof.ª Márcia para entendermos esta diferença:

Ao dizer: “…você está triste com tudo o que aconteceu, né? ”, a professora informa a criança o sentimento que ela tem. Quando estamos desenvolvendo habilidades de vida nas crianças, precisamos ter uma atitude investigativa para ajudá-las a pesquisar em si mesmas as suas emoções. Isso gera autoconhecimento. O indicado seria a professora perguntar: “- Como você está se sentindo? ” Ele poderia dizer que está triste por não ter sua mãezinha mais ao seu lado, poderia, quem sabe, dizer que tem medo, que está com saudades… para esta resposta, a criança precisou olhar para si, buscar as informações de dentro. Assim, ele dará um passo na conquista do autoconhecimento. É a visão dele sobre ele que vale. E, ao dizer a professora, ele exerce seu direito de dizer de si para o outro, também desenvolvendo a autonomia.

Em seguida, a professora oferece um abraço ao seu aluno. A intenção é oferecer carinho, mas neste caminho do desenvolvimento de habilidades, do autoconhecimento é importante perguntar: “- Posso te dar um abraço? ” Ou “- Você gostaria de receber um abraço? ” Ou mesmo “- Você quer receber um abraço, um colo ou quer ficar quietinho? ”. Pedrinho reconhecerá se abraço é algo que gosta, se quer abraço ou outra coisa. Reconhecerá o que gosta. Novamente, neste momento, sem perceber, ele está se conhecendo, conectando-se consigo mesmo.

Na sequência, a prof.ª Márcia diz:“- Hoje você vai ficar bem pertinho da professora. Qualquer dúvida ou dificuldade que tenha, eu ou algum colega te ajudaremos. ”. Com certeza, ela quer dar o seu melhor para ajudar Pedrinho. Mas, vamos pensar juntos: Ele quer ajuda? Ele precisa de ajuda? Caso ele queira ou precise, que tipo de ajuda ele necessita? A professora dedicada determinou a ajuda: ficar perto dela e ajudar nas dificuldades. Mas Pedrinho poderia querer ficar perto de um amigo, sentar junto a uma amiga, poderia querer conversar com um colega ou outra vivência qualquer. Buscando o desenvolvimento de habilidades de vida, podemos perguntar: “- Pedrinho, onde você quer se sentar hoje? ”. Esta pergunta fará com que Pedrinho perceba o que ele quer, o que é importante para ele, onde e com quem ele quer dividir este momento. Ele exercita o autoconhecimento, desenvolve novas estratégias para lidar com sentimentos desagradáveis e aprende, neste difícil e também grandioso momento, o quanto é respeitado em sua individualidade.

Sem querer, a professora gerou dependência dos alunos a sua ação. Sempre pedirão a opinião dela para resolver seus problemas, pois demonstrou ter este poder. Mas, e no ano que vem quando a professora for outra? E quando a criança estiver em casa ou não mais frequentar esta escola, como será?

Podemos pensar que são muito os detalhes e, sim, são mesmo. Mas todos estes detalhes estão permeados por uma atitude constante em prol do desenvolvimento de habilidades de vida no outro. Uma atitude onde quem mais sabe sobre o aluno é ele mesmo. Nós, adultos, professores e educadores somos eternos aprendizes do outro.  Assim, ao longo do tempo, os alunos terão a oportunidade de perceber que somos seres diferentes, cada um de nós é único, tem gostos e percepções de vida únicas e esta diferença é muito bonita. Aprenderão então a aceitar todos como são, respeitando as diferenças.

Mas quando é o momento de facilitar e mediar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais nos alunos? A resposta é: sempre! Ao ensinarmos em aulas específicas e, também, no dia a dia quando a vivência das crianças dentro da escola e fora dela possibilitar. É importante considerar que o desenvolvimento dessas habilidades exige treinamento. Para alguns mais, para outros menos, porém sempre exigirá que a criança exercite o olhar para si mesma, experimente estratégias novas para solucionar suas dificuldades e perceba o resultado de suas ações.

Essa nova postura do professor trará ao aluno saúde emocional, habilidades de vida: autonomia, respeito a si e aos outros, respeito às diferenças, noção de consequência, empatia, autoconhecimento e, principalmente, autoamor. E isso é transformador para termos uma sociedade mais solidária e feliz!

WhatsApp Image 2019-11-27 at 01.29.09

O respeito pelo ser humano e o amor às crianças norteiam minha carreira profissional. Com dedicação e estudo constante no processo de aprendizagem humana, em programas internacionais de educação socioemocional e na psicologia positiva, me dedico com afinco para que crianças e jovens possam se desenvolver cognitivo e emocionalmente de forma plena.

Eline Câncio é psicóloga, psicopedagoga e neuropsicóloga.
CRP 04/14943
Mora em Belo Horizonte – MG
Contatos: eline@az.org.br

Um banho quente e muitas descobertas


Por Katia Negri

B42A1D41-8598-4BB8-AE01-075F364E7820

Água quente e sabonete, mais um dia chega ao fim! As costas parecem reclamar daquela cadeira desconfortável da sala de espera do dentista, do tempo em pé durante o trabalho e da louça que acabei de lavar na pia da cozinha! Banho apressado às 11:30 da noite, depois de um dia tão cansativo parece um insulto è esse ritual de auto cuidado que para mim sempre significou tanto. O cansaço às vezes não me permite saborear as delícias da vida. Enquanto automatizo meus movimentos com o sabonete, penso no dia seguinte, no que preciso falar na reunião, no telefonema que não posso esquecer, na resposta ao e-mail que ainda não consegui enviar, penso no que disse, naquilo que ainda preciso dizer, nas palavras, nas frases…. E todo aquele emaranhado de ideias toma conta de mim e do meu banho, nada relaxante. O sabonete era novo e artesanal, comprado em uma casa de banhos recentemente inaugurada na minha cidade. Comprei porque adoro tomar banho!!! Mas não notei o perfume! Não sei a textura, nem mesmo percebi se faz espuma!!!!

Falar tem sido um exercício presente em minha vida, tão presente que de tanto falar percebo que às vezes não consigoouvir. Ouvir a água que cai do chuveiro, ouvir meu coração batendo, ouvir a sensação que o sabonete me causa, ouvir os cheiros, ouvir os sabores diferentes, ouvir o riso de alguém na sala se divertindo com um vídeo engraçado da internet! Agora, percebo o quanto deixei de ouvir….. Ouvir o silêncio de quem sofre, ouvir a lágrima que escorre, ouvir o entusiasmo de quem vai viajar de férias…. Para ouvir é preciso silenciar e isso inclui não responder ao Facebook sobre o que está pensando nesse momento. Ao escrever esse texto, comecei a notar o quanto somos estimulados a falar, o que pode ser positivo, mas é tanto falar que não sobra espaço para ouvir! E ouvir significa estar presente, parar e se conectar comigo e/ou com o outro!  Ouvir é também tomar banho relaxante e sentir o perfume do sabonete novo, é sentir o vento que sopra, ouvir é estar vivo! E para ouvir não é preciso escutar, ouvimos com todos os nossos sentidos, para ouvir basta estar!

E você, está exercitando o ouvir? Quero muito ouvir o que você pensa sobre esse assunto!

Ahhhh, o sabonete é de capim limão, faz muita espuma, uma espuma tão branquinha que parece neve, toque macio, e o aroma me fez lembrar a infância! Ouvi até minha mãe me chamando porque o almoço estava pronto!

887739E7-5E03-4474-882B-0205486408D1

Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@az.org.br

Sobre ser mais…


Por Neide Almeida

0E383FD1-E7D6-4F25-AF28-9BD4EE3375A4

Parando para pensar sobre o “ser mais.

De  uma forma muito inquietante esse assunto me vem a mente há alguns anos.

Porque ser mais? Mais feliz, mais saudável, mais amado, mais próspero, mais alegre? Ora bolas, se já sou feliz, se já sou saudável, porque ser mais? Já sou!

Me parece uma ideia competitiva, um tanto manipuladora, fomentando alta ansiedade, muito propícia ao consumismo adoecido.

Mais bonita, mais jovem, mais inteligente, mais viril, mais ligada, mais cheiroso, mais liberal, mais popular. E mais pleno? Não basta ser pleno, ainda tentam  vender a ideia de ser mais pleno.

Será mesmo que preciso ser mais, e mais e mais? Já não sou o suficiente, já não tenho o essencial?

Libertar-se de amarras que ditam o nosso próprio bem estar é um dos ganhos de desenvolver habilidades socioemocionais. Reconhecer as próprias necessidades, valores, aptidões, naturalizar as diferenças e apoiar-se nas ações que trazem bem estar mútuo é um caminho saudável para ter uma vida produtiva e feliz.

Desenvolver-se para lidar com os desafios da própria vida e fazer escolhas conscientes.

Autônomo das nossas necessidades e potencialidades nos colocamos no mundo com mais leveza e criatividade, e assim contribuímos, conscientemente, para o desenvolvimento dos espaços que ocupamos, saindo do mim para o nós.

B9CBD0DD-5CDE-4DAB-93FB-4CCC3F26B935
Neide Almeida

Atuou por 7 anos no PróHosic em Taubaté no apoio à pacientes e familiares do Depto. de Oncologia e atuou no mesmo período no CVV – Centro de Valorização da Vida, no atendimento emocional à pessoa em crise. Há 10 anos atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças.

 

Comunicar…

mae e filhoPor: Geovane Lopes

Comunicar-se pode ser algo muito desafiador para todos nós, especialmente quando se trata de nossos sentimentos e emoções. Entender, conhecer o que se passa dentro de nós, e conseguir falar sobre isso com as pessoas que fazem parte das nossas vidas, sejam elas do nosso ciclo de relacionamento mais íntimo pessoal ou profissional, pode ser uma tarefa muito difícil.

As dificuldades ligadas à comunicação dos nossos sentimentos podem estar relacionadas a alguns motivos, dentre eles, ao fato de não darmos a devida atenção ao que sentimos. Para que possamos expressar nossos sentimentos é preciso antes de tudo identificar e nomear o que se passa dentro de nós. Esta é uma importante habilidade que todos nós podemos desenvolver, e que as crianças que participam dos programas de Educação Emocional, têm a oportunidade de desenvolver desde cedo, o que impacta positivamente a sua Saúde Emocional.

Quando não percebemos o que estamos sentindo frente às diversas situações do cotidiano, podemos agir de maneira incongruente, ou até mesmo inadequada. Saber lidar de forma assertiva com as mais variadas situações que vivemos pode evitar consequências negativas e prejuízos significativos, que podem nos comprometer ao longo da vida.

Lembro-me de uma situação que pode ilustrar a ideia acima. Uma mulher ofereceu ajuda a uma amiga e a amiga, aflita, mergulhada em preocupações, sem se dar conta de seus sentimentos, recusou com certo descaso aquela que poderia ser uma ajuda providencial. Passadas algumas horas, a amiga desta mulher ligou para ela desculpando-se pelo modo como tinha reagido à sua oferta e esclareceu que, ao refletir sobre o modo como reagiu, percebeu que sentia vergonha.

Anteriormente, o fato de não ter reconhecido esse sentimento a fez julgar que a amiga lhe ofereceu ajuda para se sentir “por cima” e por isso ela a tratou com descaso. Ao se dar conta do sentimento, teve discernimento para conduzir a situação e aceitar a ajuda da amiga.

Encontrar uma maneira de se conectar conscientemente com o que acontece dentro de nós pode nos beneficiar, e até mesmo nos surpreender positivamente com os resultados. Isso porque, ao exercitarmos este simples processo, vamos colocando uma certa dose de “razão” nas nossas ações, orientando nossas decisões de um modo mais assertivo e consciente e, ao mesmo tempo, dando mais atenção aos aspectos particulares da nossa personalidade.

Outro hábito muito comum que temos é o de basear nossas escolhas e ações naquilo que julgamos que o mundo espera de nós, passando por cima do que sentimos e do que de fato queremos.

Recentemente, meu filho de quatro anos, após terminar de comer a sobremesa lavou o pote e a colher no lavabo de casa, mas, antes que terminasse, tomou uma bronca da mãe, que achou que ele estava aprontando. Ele saiu chorando sem entender de imediato o porquê da bronca; afinal de contas, ele quis chamar a atenção da mãe agradando-a com a louça lavada, mas, por outro lado, não era isso que a mãe esperava e aí tudo deu errado.

Quantos de nós fazemos as coisas apenas para agradar aos outros e nos decepcionamos com as consequências das nossas escolhas? Tudo porque muitas vezes agimos de acordo com aquilo que achamos que os outros esperam de nós, e não de acordo com o que queremos, sentimos e percebemos.

Compartilhar nossos sentimentos de forma assertiva pode ter um efeito muito positivo nas nossas relações interpessoais. Quantos de nós já vivenciamos ou presenciamos situações que despertam ciúmes, por exemplo? Diante destas situações, pode ser bastante comum reagirmos de forma automática, brigando, agredindo, ou tomando atitudes que podem nos prejudicar ou prejudicar o outro. Ser capaz de identificar o ciúme e a raiva, nesse caso, e falar sobre isso pode proporcionar a ambos uma comunicação mais saudável e satisfatória.

Muitas vezes, em situações desse tipo, falamos sobre o que julgamos ser certo e não comunicamos de forma verdadeira o que sentimos. Isso pode despertar em nós uma sensação de ansiedade e insegurança, por exemplo, o que, por sua vez, acaba desencadeando um ciclo, no qual o resultado na maioria das vezes não é nada agradável.

Esse ciclo pode nos levar a viver durante anos nos sentindo infelizes e insatisfeitos e, em certos casos, isso pode evoluir para doenças físicas e/ou mentais, impactar nossas relações interpessoais e até mesmo reduzir nosso rendimento profissional. E se estivermos desatentos, não perceberemos a real causa desse sofrimento.

Poucos de nós, quando crianças, fomos ensinados a nos expressar emocionalmente ou a nos comunicar de um jeito que fosse assertivo e ao mesmo tempo coerente com o que sentimos. Acredito que a maioria de nós foi estimulada a falar o que se “deve” e o que é “aceito”. Nossos pais falavam e alguns ainda falam: “você não pode dizer que está com raiva porque isso é errado”. Essa dificuldade de comunicação vai se refletir nas nossas escolhas, nas decisões que tomamos e até na definição do rumo de nossas carreiras.

Não exercitamos “considerar o que estamos sentimos”, seja nas nossas relações pessoais ou profissionais, muitas vezes ignoramos nossa intuição baseando nossas escolhas no que aprendemos “ser o certo”. Portanto, se nos observarmos com mais atenção, validando nossos processos internos como a existência de sentimentos e emoções, procurando integrá-los de forma consciente à nossa experiência, talvez seja possível viver de forma mais harmônica com a realidade e ficarmos mais alinhados aos nossos objetivos e ao que pretendemos realizar em nossas vidas.

A pessoa que se dedica a um processo de autodescobrimento e conscientização como este, pode promover uma conexão com sua verdadeira essência interior, integrando o que antes era desconhecido e não aceito por si mesma, e melhorando sua qualidade de vida, bem como suas relações interpessoais.

É simples, mas não é fácil, pois estamos habituados a ser e nos comportar do mesmo jeito desde criança. Essa mudança de rumo pode ser de dentro para fora, mas também pode se iniciar de fora para dentro, com ajuda e estímulo.

Os programas de educação emocional, por exemplo, são potentes recursos de autoconhecimento e de despertamento, que nos possibilitam tomar consciência dessa essência interior que devem nos nortear rumo a uma melhora significativa em nossas vidas.

IMG-20171207-WA0070Geovane Lopes é psicólogo há 13 anos. Atua na clínica com abordagem Psicodinâmica e Analítica com atendimento individual, casal e grupos. Na ASEC, atua como Monitor habilitado em formação de docentes para desenvolvimento de competências socioemocionais.

Brava, bravinha, esquentada!

angry-2191104__340Por: Daniela Selingardi

Brava, bravinha, esquentada… São vários os nomes usados na tentativa de enquadrar ou definir uma pessoa a partir de uma situação. É só um aspecto, mas a força de generalizar nos faz, por vezes, acreditar que “somos” e não apenas “estamos” bravos, furiosos, zangados… Pois é, normalmente as pessoas que criam “rótulos” não  perguntam os motivos, nem tão pouco refletem se foi o comportamento delas mesmas que os gerou ou o que teria contribuído para aquelas reações que agora viram rótulos.

Claro, que a ideia não é justificar o que sentimos em consequência da ação do outro, nem responsabilizar o mundo por reações inadequadas de algumas pessoas, mas, é necessário considerar o impacto em suas relações e escolher como agir. O fato é que, aprendemos a enxergar alguns rótulos como negativos nas outras pessoas, e por isso nos sentimos desconfortáveis quando percebemos que eles também estão em nós. Isso, por que seria “colocar luz”  em algo que tentamos esconder… Até a próxima vez que emergir.

Cada vez mais, vejo situações em que as pessoas se sentem desconfortáveis ao se sentirem rotuladas, e isso pode acontecer nas diferentes relações, seja de trabalho, familiar, com amigos ou com o par. Muitas pessoas passam por isso – E com o tempo o estresse vivido leva à exaustão, o sorriso vai embora, a produtividade cai e o corpo adoece.

Acompanhei de perto alguém que por anos enfrentou o rótulo de: “brava, bravinha”. Tentava se justificar ou se recolhia achando estar se excedendo. Perdeu o brilho nos olhos, o sorriso e o sono. Até que percebeu que, era chamada assim quando dizia o que pensava, por vezes de forma forte e clara, quando colocava limites e não concordava com desrespeito, negligência ou apenas fazia uma tentativa de mostrar aos outros o que sentia, pensava e sobre a energia que circulava por dentro dela, na tentativa de lidar com o que acontecia.

 Era a vontade de viver cada momento com vida e coerência, com seus sentimentos e pensamentos, era usar de transparência para se mostrar por inteiro e ser aceita como realmente era, pois assim se sentia viva.

 Desenvolver recursos para se sentir melhor, ter uma comunicação assertiva e melhorar os relacionamentos, são habilidades que podem ser aprendidas e nos levam a uma vida mais plena. Se quer saber como seu ambiente pode se tornar mais saudável e produtivo, fale com a ASEC. Oferecemos cursos e workshops para adultos, assim como os programas para crianças e jovens com comprovação científica de eficácia.

WhatsApp Image 2017-02-15 at 18.30.37

Daniela é Psicóloga, Mestre em Psicologia escolar e desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da USP/SP e monitora certificada para formação de docentes em desenvolvimento de competências socioemocionais pela ASEC.

Você sabe o que é “banda estreita”? Saiba como ela pode ajudar as crianças a lidarem com seus sentimentos

olho no olho

Por: Tania Paris

 

Quem usa internet conhece bem as vantagens de uma banda larga. Ela permite o uso simultâneo do recurso de comunicação por múltiplos usuários. Podemos, inclusive, acionar a execução de mais de uma transação através de um mesmo computador. A banda larga é recurso para economizar nosso tempo.

Nosso tempo é um recurso precioso, não estocável, não recuperável. Seja por esse motivo ou outro, estamos aprendendo a funcionar como uma banda larga – atuamos em várias tarefas ao mesmo tempo. Quem é que dirige e durante o tempo do trajeto só dirige? As mães não “assoviam e chupam cana” só porque a boca não é banda larga. Mas arrumar a mochila das crianças enquanto cobram que elas estejam prontas e dá instruções para o marido e confere a mensagem que chegou no Whatsapp, tudo ao mesmo tempo, lá isso quase todas conseguem.

Aí, depois de todo o treinamento que temos para economizar tempo, chega o momento em que uma das crianças volta da escola triste. Nossa tendência é continuar atuando em “banda larga” e tentar “resolver” essa tristeza rapidamente – rapidamente porque existem muitas outras tarefas e problemas para dar conta.

Tristeza, frustração, decepção, medo… dos filhos não se “resolve”. Crianças que estão experimentando sentimentos difíceis precisam de acolhimento para reconhecerem e lidarem com o sentimento, para se desenvolverem emocionalmente. Uma mãe em “banda larga”, preocupada com outras coisas e com o sempre ligado celular, não é adequada.

Momentos como esse são excelentes oportunidades, se for possível virar uma chavinha e mudar para “banda estreita” = processamento de um só usuário. Desligar tudo, a cabeça principalmente, e estar totalmente voltada a facilitar que a criança se expresse e encontre, por ela mesma, seu caminho. A banda larga nos impulsionaria a dar-lhe soluções; a banda estreita permite a sabedoria de dar a ela o tempo de que precisa para desenvolver autopercepção e autonomia. A banda larga nos induziria a subestimar os sentimentos; a banda estreita nos proporciona condições de aproximação, diálogo, participação emocional na vida da criança.

Aos assuntos intelectuais, que tenhamos a banda mais larga possível; aos emocionais, que seja estreita a um único usuário – aquele a quem tanto amamos.

 

foto-tania-para-publicidadeTania Paris fundou a Associação pela Saúde Emocional de Crianças para dar oportunidades às crianças de aprenderem, desde muito cedo, a lidar com seus sentimentos e com as dificuldades da vida. “Amigos do Zippy” é um programa internacional de Educação Emocional, representado exclusivamente pela ASEC no Brasil, que é desenvolvido em escolas pelos próprios professores das crianças. www.az.org.br

Você já se sentiu sem saída?

girl-868783_960_720Por: Katia Negri

Você já passou por alguma situação na vida em que achou que não “daria conta” ou que desistiria de tudo, e no final conseguiu superar e encontrar caminhos para se reerguer e dar a “volta por cima”?

Muitos de nós temos uma ou mais histórias assim para contar, não é mesmo? Elas podem estar relacionadas à dificuldade financeira, separação conjugal, morte de alguém querido, problemas familiares, questões profissionais, situações que envolvam doença, entre outras. E, algumas vezes, vivenciamos várias dificuldades ao mesmo tempo.

Você já passou por isso? Sabe aquela fase difícil da vida, em que pensamos: “O que mais falta acontecer?”

Diante de tantas dificuldades, podemos nos sentir sobrecarregados e sem forças para seguir adiante, mas de alguma forma seguimos; de alguma maneira encontramos forças para lidar com todos os sentimentos desconfortáveis que nos machucam por dentro. Você já parou para tentar identificar o que nos impulsiona para frente, o que nos faz continuar e não desistir?

Existe algo que está dentro de todos nós e que muitas vezes só percebemos quando estamos diante dessas situações difíceis da vida. São os nossos recursos internos!

Cada um de nós nasce com a capacidade de desenvolver, de forma praticamente infinita, recursos internos para lidar com as adversidades da vida e com os sentimentos que elas podem gerar. Sabe quando nos lembramos de determinada situação e pensamos: “Nossa como eu consegui fazer aquilo”? “Como consegui lidar com a enorme tristeza que aquele evento despertou em mim”?

Conseguimos porque ao longo da vida vamos desenvolvendo em maior ou menor escala, nossa capacidade de lidar com as dificuldades. Isso quer dizer que todos nós sempre teremos recursos suficientes para lidar com qualquer situação desafiadora?

Não podemos afirmar que sim, mas sabemos que, quanto mais ferramentas tivermos, maiores serão as chances de nos sentirmos abastecidos.

Quer um exemplo prático?

Pedir ajuda pode ser um importante recurso diante de inúmeras situações desafiadoras em nossas vidas. Mas, para alguns de nós, pedir ajuda pode não ser tão fácil! Ou porque acreditamos que é sinal de fraqueza e incompetência, ou porque nos preocupamos com o que o outro pode pensar de nós, ou ainda porque não fomos estimulados a buscar o auxílio das outras pessoas.

Alguns de nós, depois de passar por certas circunstâncias em nossas vidas, pensamos: “Se não fosse fulano me ajudar, não sei o que teria sido de mim”. Mas, não podemos nos esquecer da nossa habilidade em pedir e aceitar ajuda, que combinada com a atitude positiva do outro, faz toda diferença.

E, nesse caso, podemos entender a palavra “ajuda” não somente para resolver o problema propriamente dito, mas existem muitas formas de receber e oferecer ajuda: ouvir o outro de forma empática e sem julgamentos, estar ao lado de alguém que está passando por uma dificuldade, mostrando importar-se com seus sentimentos, também são importantes maneiras de ajudar alguém.

Além de pedir ajuda, existem outros recursos internos, que quando desenvolvidos, fortalecem nossa Saúde Emocional. Encontrar formas de nos sentirmos melhor quando experimentamos algum sentimento que traz desconforto, a capacidade de nos comunicarmos com clareza e assertividade, a habilidade de buscar muitas estratégias para resolver um determinado problema e identificar qual é a melhor solução, são alguns exemplos de recursos e habilidades que podemos desenvolver ao longo da vida.

Você já parou para pensar se no seu dia-a-dia você inclui atividades e/ou pequenas ações e cuidados que contribuem para sua Saúde Emocional?

Independentemente de estar vivendo um momento mais delicado da vida ou não, ações voltadas para a promoção de nosso bem-estar podem enriquecer nossos recursos internos para que possamos lidar cada vez melhor com as dificuldades que enfrentamos agora ou que podemos vir a enfrentar no futuro.

Já pensou na possibilidade de seus filhos, sobrinhos ou alunos terem a oportunidade de desenvolver habilidades emocionais e sociais, e aumentar de forma significativa seus recursos para lidar com as dificuldades da vida por meio da Educação Emocional?

Sim, isso é possível e certamente contribuirá para o seu sucesso em várias esferas da vida! Acesse nosso portal e conheça nos cursos e programas: www.asecbrasil.org.br.

Qual o limite entre a gozação e o bullying?

pegadinha

Por: Tania Paris

A lei 13.185, de novembro de 2015, instituiu o Programa de combate à Intimidação Sistemática (bullying).

Segundo a mesma, bullying é todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Então, uma brincadeira que ridiculariza uma deficiência ou fraqueza de alguém só seria considerada bullying quando se tornasse frequente, certo? Dessa forma, se estivermos convencidos da necessidade de combater o bullying, deveríamos estar atentos para coibir essas brincadeiras quando estivessem sendo repetidas. É isso? Mas, repetidas quantas vezes? Qual seria a quantidade de vezes que indicaria um “farol amarelo”? E quando saber que já se tornou vermelho?

Há algum tempo atrás, escutei um pai orgulhoso contando sobre seu filho pequeno, inteligente e muito engraçado, que fazia gozações com colegas e vizinhos sob notório incentivo da família. Cheguei a mencionar a palavra bullying, mas a plateia que ria dos relatos desconsiderou meu comentário. Tecnicamente falando, eu estava errada. Mas não consigo esquecer aquela cena. Lembro-me dela com um título: como criar um intimidador.

Queria propor um novo limite entre a gozação e o bullying: a intenção.

Se a vítima se magoou com a brincadeira, o agressor que não estava mal-intencionado recua, pede desculpas, “se toca”, porque usa empatia para compreender o custo de sua diversão. Mas se a intenção tiver sido impressionar a plateia na base do custe o que custar… bem… Pais, vamos esvaziar essa plateia; vamos educar nossas crianças para que possamos todos viver num mundo mais saudável.

foto-tania-para-publicidade

Tania Paris fundou a Associação pela Saúde Emocional de Crianças para dar oportunidades às crianças de aprenderem, desde muito cedo, a lidar com seus sentimentos e com as dificuldades da vida. “Amigos do Zippy” é um programa internacional de Educação Emocional, representado exclusivamente pela ASEC no Brasil, que é desenvolvido em escolas pelos próprios professores das crianças. www.az.org.br

Frustração infantil e a importância de dizer não

birra

Por: Paola Centieiro

Outro dia deparei-me com uma cena, que acredito já ter sido presenciada por muitos de nós: em um supermercado uma criança se debatia no chão enquanto que uma mãe, constrangida, tentava calmamente conversar com ela e explicar o porquê de não poder levar o chocolate pedido naquele dia. Quantos de nós já não vimos ou, até mesmo, vivenciamos uma situação como essa, não é mesmo?

Ao observar aquela cena, logo pensei em quantos sentimentos estavam ali envolvidos, o constrangimento da mãe, a raiva da criança, e o que deve ter dado início a tudo isso, a tal da frustração.

Mas, afinal, o que é frustração?

Frustração é o sentimento que nos abate em decorrência da não realização de um desejo ou expectativa e, geralmente, vem de “mãos dadas” com muitos outros sentimentos, como a raiva e a tristeza. Apesar da frustração ser muito associada ao fracasso ou desilusão, ela é de extrema importância para o desenvolvimento emocional sadio.

Vivemos em uma era de imediatismos, rapidez e satisfação instantânea. Desde pequenas as crianças estão acostumadas a ter acesso a desenhos ilimitados em canais infantis e na internet, jogos ao alcance dos dedos em tablets e celulares, satisfação instantânea.

Lembram-se dos tempos de “outrora” quando tínhamos que aguardar, ansiosamente, pelos desenhos animados nos programas infantis matinais? Quando tínhamos que aguardar a visita de primos e amigos para termos com quem brincar com nossos jogos de tabuleiro, bonecos de ação ou para ter quem batesse a corda de pular no quintal de casa? Eram tempos em que recebíamos, diariamente, uma pequena dose de frustração! Aí está, a tal da frustração presente, desde cedo, em nossas vidas, não somente nos momentos de fracasso ou grande desilusão, mas em nosso cotidiano, nas pequenas ações diárias.

Como adultos sabemos que nem sempre poderemos ter o que desejamos, ou na velocidade em que desejamos, exigindo, muitas vezes, trabalho e dedicação para alcançarmos nossos desejos e objetivos. Assim, percebemos que as frustrações são parte inerente da vida adulta; conseguir encará-las e encontrar formas de lidar com o desconforto causado por elas são fundamentais para nosso crescimento interior e bem-estar emocional.

Na ânsia de ver nossos filhos felizes e realizados podemos acabar nos esforçando em atender a todos os seus desejos, acreditando que, ao negar-lhes algo, estaremos lhes causando sofrimento. Quando os pais tentam de todas as maneiras evitar qualquer tipo de sofrimento ou frustração da criança estão sendo imediatistas porque, poupando-os desse tipo de sofrimento, privam seus filhos de oportunidades de crescimento pessoal e de compreensão de mundo. O excesso de proteção pode, futuramente, resultar em adultos que não conseguem lidar com as frustrações cotidianas e adversidades da vida.

A cada situação de frustração vivenciada a criança aprende a encontrar uma forma de lidar com desconforto gerado pela negação do seu desejo, a perseverar em seus objetivos, a encontrar novos caminhos e superar adversidades. Nesse sentido podemos dizer que passar por situações de frustração abre espaço para desenvolver resiliência, também tão importante em nosso desenvolvimento social e emocional.

Pequenas doses de frustração são necessárias para que as crianças compreendam que a frustração faz parte da vida. Ao permitirmos que as crianças se frustrem algumas vezes contribuímos para que elas sejam adultos mais resilientes e compreensivos. O não é um ato de amor.

É comum que crianças pequenas chorem ou “façam birra” ao sentirem-se frustradas pelas primeiras vezes e sabemos como pode ser dolorido ver o sofrimento de uma pessoa querida por nós, mesmo quando sabemos a importância daquele momento. Voltando à imagem da criança no chão do supermercado reflito em quanto amor estava envolvido naquele “não” àquela criança, no esperar da mãe para que a criança se acalmasse e na conversa sobre os motivos de não poder levar o chocolate naquele dia.

Ao nos sentirmos apoiados quando nos frustramos, percebemos que “tudo bem” as coisas não saírem da forma que planejamos ou desejávamos, e “tudo bem” nos sentirmos tristes ou com raiva por conta disso.

Aprender, desde cedo, a buscar estratégias para lidar com o desconforto emocional que sentimos e encontrar formas de nos sentirmos melhor, mesmo em meio as adversidades é uma ferramenta importante, que pode ser uma poderosa aliada na hora de dizer não.

Lidar com os sentimentos desagradáveis é um dos pilares dos programas e cursos de Educação Emocional da ASEC.

Para saber mais, acesse: www.az.org.br

Paolitcha

Paola é professora, atuou durante 13 anos em turmas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, em escolas e instituições sem fins lucrativos. Desde 2014 atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças e como coordenadora do núcleo regional do Rio de Janeiro.