Comunicar…

mae e filhoPor: Geovane Lopes

Comunicar-se pode ser algo muito desafiador para todos nós, especialmente quando se trata de nossos sentimentos e emoções. Entender, conhecer o que se passa dentro de nós, e conseguir falar sobre isso com as pessoas que fazem parte das nossas vidas, sejam elas do nosso ciclo de relacionamento mais íntimo pessoal ou profissional, pode ser uma tarefa muito difícil.

As dificuldades ligadas à comunicação dos nossos sentimentos podem estar relacionadas a alguns motivos, dentre eles, ao fato de não darmos a devida atenção ao que sentimos. Para que possamos expressar nossos sentimentos é preciso antes de tudo identificar e nomear o que se passa dentro de nós. Esta é uma importante habilidade que todos nós podemos desenvolver, e que as crianças que participam dos programas de Educação Emocional, têm a oportunidade de desenvolver desde cedo, o que impacta positivamente a sua Saúde Emocional.

Quando não percebemos o que estamos sentindo frente às diversas situações do cotidiano, podemos agir de maneira incongruente, ou até mesmo inadequada. Saber lidar de forma assertiva com as mais variadas situações que vivemos pode evitar consequências negativas e prejuízos significativos, que podem nos comprometer ao longo da vida.

Lembro-me de uma situação que pode ilustrar a ideia acima. Uma mulher ofereceu ajuda a uma amiga e a amiga, aflita, mergulhada em preocupações, sem se dar conta de seus sentimentos, recusou com certo descaso aquela que poderia ser uma ajuda providencial. Passadas algumas horas, a amiga desta mulher ligou para ela desculpando-se pelo modo como tinha reagido à sua oferta e esclareceu que, ao refletir sobre o modo como reagiu, percebeu que sentia vergonha.

Anteriormente, o fato de não ter reconhecido esse sentimento a fez julgar que a amiga lhe ofereceu ajuda para se sentir “por cima” e por isso ela a tratou com descaso. Ao se dar conta do sentimento, teve discernimento para conduzir a situação e aceitar a ajuda da amiga.

Encontrar uma maneira de se conectar conscientemente com o que acontece dentro de nós pode nos beneficiar, e até mesmo nos surpreender positivamente com os resultados. Isso porque, ao exercitarmos este simples processo, vamos colocando uma certa dose de “razão” nas nossas ações, orientando nossas decisões de um modo mais assertivo e consciente e, ao mesmo tempo, dando mais atenção aos aspectos particulares da nossa personalidade.

Outro hábito muito comum que temos é o de basear nossas escolhas e ações naquilo que julgamos que o mundo espera de nós, passando por cima do que sentimos e do que de fato queremos.

Recentemente, meu filho de quatro anos, após terminar de comer a sobremesa lavou o pote e a colher no lavabo de casa, mas, antes que terminasse, tomou uma bronca da mãe, que achou que ele estava aprontando. Ele saiu chorando sem entender de imediato o porquê da bronca; afinal de contas, ele quis chamar a atenção da mãe agradando-a com a louça lavada, mas, por outro lado, não era isso que a mãe esperava e aí tudo deu errado.

Quantos de nós fazemos as coisas apenas para agradar aos outros e nos decepcionamos com as consequências das nossas escolhas? Tudo porque muitas vezes agimos de acordo com aquilo que achamos que os outros esperam de nós, e não de acordo com o que queremos, sentimos e percebemos.

Compartilhar nossos sentimentos de forma assertiva pode ter um efeito muito positivo nas nossas relações interpessoais. Quantos de nós já vivenciamos ou presenciamos situações que despertam ciúmes, por exemplo? Diante destas situações, pode ser bastante comum reagirmos de forma automática, brigando, agredindo, ou tomando atitudes que podem nos prejudicar ou prejudicar o outro. Ser capaz de identificar o ciúme e a raiva, nesse caso, e falar sobre isso pode proporcionar a ambos uma comunicação mais saudável e satisfatória.

Muitas vezes, em situações desse tipo, falamos sobre o que julgamos ser certo e não comunicamos de forma verdadeira o que sentimos. Isso pode despertar em nós uma sensação de ansiedade e insegurança, por exemplo, o que, por sua vez, acaba desencadeando um ciclo, no qual o resultado na maioria das vezes não é nada agradável.

Esse ciclo pode nos levar a viver durante anos nos sentindo infelizes e insatisfeitos e, em certos casos, isso pode evoluir para doenças físicas e/ou mentais, impactar nossas relações interpessoais e até mesmo reduzir nosso rendimento profissional. E se estivermos desatentos, não perceberemos a real causa desse sofrimento.

Poucos de nós, quando crianças, fomos ensinados a nos expressar emocionalmente ou a nos comunicar de um jeito que fosse assertivo e ao mesmo tempo coerente com o que sentimos. Acredito que a maioria de nós foi estimulada a falar o que se “deve” e o que é “aceito”. Nossos pais falavam e alguns ainda falam: “você não pode dizer que está com raiva porque isso é errado”. Essa dificuldade de comunicação vai se refletir nas nossas escolhas, nas decisões que tomamos e até na definição do rumo de nossas carreiras.

Não exercitamos “considerar o que estamos sentimos”, seja nas nossas relações pessoais ou profissionais, muitas vezes ignoramos nossa intuição baseando nossas escolhas no que aprendemos “ser o certo”. Portanto, se nos observarmos com mais atenção, validando nossos processos internos como a existência de sentimentos e emoções, procurando integrá-los de forma consciente à nossa experiência, talvez seja possível viver de forma mais harmônica com a realidade e ficarmos mais alinhados aos nossos objetivos e ao que pretendemos realizar em nossas vidas.

A pessoa que se dedica a um processo de autodescobrimento e conscientização como este, pode promover uma conexão com sua verdadeira essência interior, integrando o que antes era desconhecido e não aceito por si mesma, e melhorando sua qualidade de vida, bem como suas relações interpessoais.

É simples, mas não é fácil, pois estamos habituados a ser e nos comportar do mesmo jeito desde criança. Essa mudança de rumo pode ser de dentro para fora, mas também pode se iniciar de fora para dentro, com ajuda e estímulo.

Os programas de educação emocional, por exemplo, são potentes recursos de autoconhecimento e de despertamento, que nos possibilitam tomar consciência dessa essência interior que devem nos nortear rumo a uma melhora significativa em nossas vidas.

IMG-20171207-WA0070Geovane Lopes é psicólogo há 13 anos. Atua na clínica com abordagem Psicodinâmica e Analítica com atendimento individual, casal e grupos. Na ASEC, atua como Monitor habilitado em formação de docentes para desenvolvimento de competências socioemocionais.

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