De que forma você lê o mundo e escreve nele a sua história?

De que forma você lê o mundo e escreve nele a sua história?

Por Katia Negri

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Os olhos dele brilharam e de repente ele me olhou fixamente depois de ler uma pequena palavra, respiramos juntos, e pude experimentar novamente aquela sensação indescritível. Ser testemunha de uma das descobertas mais lindas e importantes da vida de uma criança renova as minhas forças, reaviva a esperança e me enche de energia.

Como professora e apaixonada pela alfabetização, vivi essa sensação inúmeras vezes, e sempre me emocionei em todas elas, lembro-me que no percurso de retorno da escola para casa, pensava: “e mais um descobriu que pode ler, escrever, desenhar, viver, ser….” Pode SER com letra maiúscula, porque não se trata de decodificar letras e sons, mas de confiar em si mesmo, de se permitir, de ter a coragem de segurar nas mãos da professora e não soltar, mesmo quando às vezes a proposta parecia desafiadora demais. Era preciso transpor o desafio para ganhar de presente a sensação de conquista, que geralmente vinha acompanhada da frase: “Eu sei ler”! É claro que os abraços e as comemorações, algumas vezes com lágrimas nos olhos, faziam parte do momento “ser”, que naquele instante significava eu sou capaz, eu posso, eu consigo.

Sou profunda admiradora da psicóloga, pesquisadora e escritora argentina, Emília Ferreiro, que desvendou os mecanismos pelos quais as crianças aprendem a ler e escrever.

Algumas de suas citações sobre o processo de alfabetização possibilitam reflexões que, a meu ver, podem ir muito além da aquisição da leitura e da escrita, e nos convidam a ler o que está “dentro de nós”.

A vida e os seus processos, o passo a passo que está tão presente no nosso desenvolvimento humano também está presente em sua narrativa, quando diz por exemplo, que as primeiras tentativas de escrita já não devem ser vistas como rabiscos, mas são de fato uma espécie de escrita. Emília Ferreiro defende a ideia de que a criança começa a escrever desde que faz os primeiros rabiscos, para nós podem ser rabiscos, mas para ela é o processo de escrita nascendo, acontecendo! Rabiscar é escrever!

A partir dessa ideia, quero compartilhar aqui algumas perguntas que fiz a mim mesma e que hoje gostaria de fazê-las a você, para que possamos juntos ler o que vai dentro de nós.

Vamos começar pelos “rabiscos”? Será que algumas vezes enxergamos as coisas em nossas vidas como “rabiscos”, algo sem importância?

Preciso dizer a vocês que fiz isso em várias ocasiões em minha vida, me lembro por exemplo, quando estava aprendendo a fazer crochê e achava que os meus primeiros pontos eram algo totalmente disformes, quando na realidade eram os meus “rabiscos” nascendo. Mas, eu não me permiti amá-los e viver a sensação do: “Eu sei ler”. Invés disso, critiquei-me duramente, neguei o meu processo, não reconheci minha conquista e com isso perdi a chance do brilho nos olhos, do abraço em mim mesma, e da comemoração pelo Ser capaz.

Reconhecer que os “rabiscos”, que as vezes podem ser chamados de erros, fazem parte da construção do nosso processo de desenvolvimento, nos abre um capítulo novo no livro da vida, um lugar de valor, de aprendizado, de amor próprio.

Um desafio que gostaria de propôr para nós a partir desse texto, é a tentativa de deixar de lado o “piloto automático”, a busca pela perfeição, e mergulhar nas memórias e aprendizagens da criança que fomos. Talvez possamos encontrar frases como: “Professora eu já sei ler.” “Mãe eu consegui amarrar o tênis”. “Pai deixa eu te mostrar como eu já aprendi a andar de bicicleta.” E o convite aqui é para que possamos deixar a sensação potente da descoberta e da conquista tomar conta da gente de novo!

Você já parou pra pensar que podemos manter essas experiências vivas dentro de nós quando “lemos” o mundo que amanhece todos os dias diante dos nossos olhos?

Quem sabe se ao estabelecermos essa conexão profunda conosco, seja possível descobrir um novo jeito de fazer a leitura da vida e escrever a própria história, valorizando nossos “rabiscos” enquanto professores, pais, filhos, amigos. São os “rabiscos “, que fazem parte da nossa construção, dos nossos processos. Assim, quando nossos olhos brilharem de novo, poderemos nos abraçar e experimentar a sensação do: eu sou capaz, eu posso, eu sei lidar.

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Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@asecbrasil.org.br

 

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