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A diferença entre a afetividade e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais

Por Eline Câncio

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Uma professora muito acolhedora e amorosa, prof.ª Márcia, tem um querido aluno que perdeu a mãe. Desde o acontecido, seu aluno está ausente das aulas. Hoje, uma semana depois, ele voltou a escola. Chegou com olhos marejados, um pouco ensimesmado, mais calado e quieto. Ao vê-lo e sabendo o porquê de tudo aquilo e já tendo conversado com a turma sobre o acolhimento que o colega talvez precisasse, ela foi logo ao encontro dele, dizendo:

– Olá Pedrinho, você está triste com tudo o que aconteceu, né? A gente fica mesmo. Deixa eu te dar um abraço. Hoje você vai ficar bem pertinho da professora. Qualquer dúvida ou dificuldade que tenha, eu ou algum colega te ajudaremos. Uma colega logo levantou da cadeira, segurou a mão do Pedrinho e disse que todos iriam ajudá-lo.

Não há dúvidas que esta história fala sobre afetividade, sobre acolhimento e carinho, características tão importantes na relação entre professor e aluno. Quando falamos de afeto, estamos abrindo caminho para o encontro verdadeiro entre duas pessoas. Abre-se também boas oportunidades de desenvolvimento da autoestima do aluno, facilitando, e muito, seu aprendizado.

Há momentos em que o aluno traz para a sala de aula problemas que o professor não sabe o que fazer ou como lidar. Nestas horas, o afeto é uma grande estratégia para unir, acolher e apoiar.

Mas, quando estamos falando do desenvolvimento de habilidades socioemocionais, devemos considerar o afeto como o caminho natural em que todos nós podemos nos relacionar uns com os outros. Porém, são ações diferentes.

Proponho que analisemos a fala da prof.ª Márcia para entendermos esta diferença:

Ao dizer: “…você está triste com tudo o que aconteceu, né? ”, a professora informa a criança o sentimento que ela tem. Quando estamos desenvolvendo habilidades de vida nas crianças, precisamos ter uma atitude investigativa para ajudá-las a pesquisar em si mesmas as suas emoções. Isso gera autoconhecimento. O indicado seria a professora perguntar: “- Como você está se sentindo? ” Ele poderia dizer que está triste por não ter sua mãezinha mais ao seu lado, poderia, quem sabe, dizer que tem medo, que está com saudades… para esta resposta, a criança precisou olhar para si, buscar as informações de dentro. Assim, ele dará um passo na conquista do autoconhecimento. É a visão dele sobre ele que vale. E, ao dizer a professora, ele exerce seu direito de dizer de si para o outro, também desenvolvendo a autonomia.

Em seguida, a professora oferece um abraço ao seu aluno. A intenção é oferecer carinho, mas neste caminho do desenvolvimento de habilidades, do autoconhecimento é importante perguntar: “- Posso te dar um abraço? ” Ou “- Você gostaria de receber um abraço? ” Ou mesmo “- Você quer receber um abraço, um colo ou quer ficar quietinho? ”. Pedrinho reconhecerá se abraço é algo que gosta, se quer abraço ou outra coisa. Reconhecerá o que gosta. Novamente, neste momento, sem perceber, ele está se conhecendo, conectando-se consigo mesmo.

Na sequência, a prof.ª Márcia diz:“- Hoje você vai ficar bem pertinho da professora. Qualquer dúvida ou dificuldade que tenha, eu ou algum colega te ajudaremos. ”. Com certeza, ela quer dar o seu melhor para ajudar Pedrinho. Mas, vamos pensar juntos: Ele quer ajuda? Ele precisa de ajuda? Caso ele queira ou precise, que tipo de ajuda ele necessita? A professora dedicada determinou a ajuda: ficar perto dela e ajudar nas dificuldades. Mas Pedrinho poderia querer ficar perto de um amigo, sentar junto a uma amiga, poderia querer conversar com um colega ou outra vivência qualquer. Buscando o desenvolvimento de habilidades de vida, podemos perguntar: “- Pedrinho, onde você quer se sentar hoje? ”. Esta pergunta fará com que Pedrinho perceba o que ele quer, o que é importante para ele, onde e com quem ele quer dividir este momento. Ele exercita o autoconhecimento, desenvolve novas estratégias para lidar com sentimentos desagradáveis e aprende, neste difícil e também grandioso momento, o quanto é respeitado em sua individualidade.

Sem querer, a professora gerou dependência dos alunos a sua ação. Sempre pedirão a opinião dela para resolver seus problemas, pois demonstrou ter este poder. Mas, e no ano que vem quando a professora for outra? E quando a criança estiver em casa ou não mais frequentar esta escola, como será?

Podemos pensar que são muito os detalhes e, sim, são mesmo. Mas todos estes detalhes estão permeados por uma atitude constante em prol do desenvolvimento de habilidades de vida no outro. Uma atitude onde quem mais sabe sobre o aluno é ele mesmo. Nós, adultos, professores e educadores somos eternos aprendizes do outro.  Assim, ao longo do tempo, os alunos terão a oportunidade de perceber que somos seres diferentes, cada um de nós é único, tem gostos e percepções de vida únicas e esta diferença é muito bonita. Aprenderão então a aceitar todos como são, respeitando as diferenças.

Mas quando é o momento de facilitar e mediar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais nos alunos? A resposta é: sempre! Ao ensinarmos em aulas específicas e, também, no dia a dia quando a vivência das crianças dentro da escola e fora dela possibilitar. É importante considerar que o desenvolvimento dessas habilidades exige treinamento. Para alguns mais, para outros menos, porém sempre exigirá que a criança exercite o olhar para si mesma, experimente estratégias novas para solucionar suas dificuldades e perceba o resultado de suas ações.

Essa nova postura do professor trará ao aluno saúde emocional, habilidades de vida: autonomia, respeito a si e aos outros, respeito às diferenças, noção de consequência, empatia, autoconhecimento e, principalmente, autoamor. E isso é transformador para termos uma sociedade mais solidária e feliz!

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O respeito pelo ser humano e o amor às crianças norteiam minha carreira profissional. Com dedicação e estudo constante no processo de aprendizagem humana, em programas internacionais de educação socioemocional e na psicologia positiva, me dedico com afinco para que crianças e jovens possam se desenvolver cognitivo e emocionalmente de forma plena.

Eline Câncio é psicóloga, psicopedagoga e neuropsicóloga.
CRP 04/14943
Mora em Belo Horizonte – MG
Contatos: eline@az.org.br

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