Inventando a palavra onde não tem

Inventando a palavra onde não tem

Por Carolina Resende Gonçalves

200420

– Fulana(o) está arrancando cebolinha hoje!

Desde criança eu entendi o emprego dessa expressão. Eu sabia que arrancar cebolinha era uma coisa boa. Sabia como e quando se dizia que alguém estava arrancando cebolinha. Depois de alguns anos, eu entendi que essa expressão não fazia sentido pra mais ninguém além da minha família. Arrancar cebolinha se diz na minha família quando uma pessoa está muito feliz ou animada. Mas arrancar cebolinha não tem absolutamente nada a ver com o fato de uma pessoa estar feliz ou animada. A verdade mesmo, é que não faz o menor sentido. Eu demorei tempos para perceber isso e me despertar para uma pergunta-chave na investigação do meu próprio dialeto:

– Vó, o que é arrancar cebolinha?

Eu sabia o que era arrancar cebolinha. Eu sentia o que era arrancar cebolinha. Mas eu não sabia qual era, de verdade, a explicação para as palavras “arrancar” e “cebolinha” expressarem aquele sentimento que eu sentia. Caso não houvesse explicação, eu saberia que não havia explicação. Mas havia, sempre há. A história é assim: um primo de segundo grau, primo primeiro da minha mãe, era criança pequena. Minha bisavó (avó dele) chegou de viagem, de distâncias interestaduais, para uma visita. Ele ficou tão contente com a chegada dela que se viu em apuros diante da própria felicidade e, sem necessidade culinária, arrancou toda a plantação de cebolinha que a mãe dele tinha em casa.

Penso que arrancar a plantação de cebolinha foi uma estratégia muito inteligente do meu primo naquele momento: afinal de contas, o que fazer quando a felicidade não está cabendo dentro da gente? E do caso que foi, de causar risos, surgiu uma expressão. E a expressão virou um sentimento. Um sentimento conhecido na família. Um sentimento que até mesmo eu, nascida anos depois, sou capaz de experimentar.

– Deixa ela(e), que hoje ela(e) está arrancando cebolinha.

            Dizemos assim quando a felicidade está precisando de espaço. É porque mesmo quando a energia é alegre, ela pode trazer uma inquietação tão grande que chega a incomodar quem não se sente da mesma forma. Dizendo que a situação de alguém é caso de arrancar cebolinha: reconhecemos, comunicamos e damos o espaço que a felicidade está precisando naquele momento.

É bonito isso. E acontece. Pessoas reunidas são capazes de criar dialetos impressionantes. De se comunicarem com riqueza diante daquilo que vivenciam. De criarem palavras que, antes de serem, já eram em experiência. É cada invenção que se a gente não anotar ou registrar as palavras nascidas, corremos o risco de deixar elas perdidas depois. Esses dialetos surgem em relações diversas. Família é um desses lugares, mas tem outros. Tantos! É gostoso estar perto de pessoas que ativam a criatividade dos sentidos. Crianças são mestras invencíveis nesse quesito!

Nem sempre as expressões surgem de boas experiências. Existem aquelas que doem, que expressam o sofrimento daquilo que houve. As que nascem da dor também são bem-vindas, porque existem.

Saudade é palavra nossa, palavra do português do Brasil. Significa um sentimento que não tem sinônimo mas que, com esforço, cabe na explicação do sentir falta, do estar longe, do querer perto. Uai é palavra da gente que é mineiro, palavra do mineirês criada nos idos da inconfidência em Minas Gerais. Significa sentidos e sentimentos diversos, que variam conforme a entonação e o contexto, que vão da doçura à braveza. Arrancar cebolinha é palavra dos meus, palavra dos Resendes de Resende Costa, filhos e netos de Dona Vera. Significa aquilo que eu já falei e não preciso repetir. Crocodilar é palavra do meu Tio Beto, palavra dos filhos e netos da Dona Lourdinha. Significa tirar um cochilo ou ficar na cama, na horizontal, sem pressa de tempo. Boa noite vou dormir, é palavra minha e da Lívia, minha amiga com quem divido a casa e o isolamento social. Significa estar com o pé sujo por preguiça ou por acreditar que ele não está tão sujo assim.

Tenho um dicionário de expressões sem sentido. Tenho muitos dicionários de expressões que fazem todo o sentido na minha vida e na vida de pessoas que eu amo. Tenho um dicionário em branco, de expressões sem sentido que ainda vou criar porque sei que não cabem todos os sentimentos que eu experimento no espaço que o português me oferece hoje. Então, vou, junto, inventando espaços.

Tudo isso eu digo não para que faça sentido, mas para fazer lembrar desta riqueza que temos dentro de nós e dentro das nossas relações: a riqueza de criar, de inventar, de imaginar, de fugir um pouco dos sentidos prontos para refazê-los. São palavras com vida própria, que aparecem como um caminho possível para lidar com aquilo que surge da experiência entre nós e os nossos.

Haja dicionário para traduzir tudo o que se tem se passado com cada pessoa durante a pandemia. Será que ao final da quarentena ainda vou saber me comunicar com o mundo social? Será que vou saber dividir, em língua compartilhada, todos os sentidos da minha experiência de dias a fio dentro de casa? Será que vou entender, pelos meus sentidos conhecidos, os sentidos criados nas experiências diversas daqueles com quem eu irei conversar?

Haverá esforço para que sim. Se nos escutarmos bem, encontraremos sentidos. Ou não. Afinal de contas, quantos tantos dialetos estão surgindo neste momento?

Carolina Resende

Carolina Resende Gonçalves

Sou formada em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela UFMG, e colaboro com a ASEC desde o final do ano de 2019. Passei por experiências de trabalho nos campos da comunicação, educação, cultura e desenvolvimento social. Me especializei em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (ENSP/Fiocruz) e, neste ano, ingressei como mestranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz). Faço parte da rede de voluntários do CVV desde 2016. Mesmo não sendo mais moradora da cidade há alguns anos, digo que sou de Barbacena, Minas Gerais.

carolina@asecbrasil.org.br e carolinaresendeg@gmail.com

7 comentários sobre “Inventando a palavra onde não tem

  1. Na moral, Carol, arrasou… Saudações com sons do meu dialeto carioques de vila isabel, da lapa, do rio da gema

  2. Amei o texto. Em minha família também temos um monte de palavras nossas. Parabéns, Carolina Resende! Nós, seus conterrâneos, ficamos muito felizes por ver filhos da terra fazendo trabalhos tão especiais .

  3. Amei Carol, minha família tb tem algumas palavras inventadas, as vezes me pego falando com outras pessoas que ñ entendem “bulufas”!
    Ainda vamos conversar so isso. Beijos!

  4. Carol … Parabéns !!! Adorei o texto ! Vc me fez voltar lá na minha infância … Me levou a fazer memória de coisas tão especiais e pessoais ! Tão pessoais !!! Que são relíquias de família ! A propósito … Ah … As famílias ,spre elas ,tdo nelas,e por elas !

  5. Que lindo o texto. Carol conseguiu expressar lindamentede a felicidade em família. No movimento da vida , quando atentos,somos brindamos com novas descobertas.. com novos dialetos. Foi um prazer caminhar por esse texto. Estou arrancando cebolinha.

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