O baile do Home Office em tempos de quarentena

O baile do Home Office em tempos de quarentena

Por Katia Negri

EBB695DA-4C98-4AD2-BD75-642CE6C29FDB

A planilha está aberta, um gole no café frio, e ouço minha filha chorar na cozinha porque não quer tomar o leite, mais uma respiração profunda…. É só home office, nada diferente do que estou acostumado, meu trabalho se transportou para minha casa, é só isso! Começo a buscar concentração e analisar os primeiros números, e os latidos incessantes do cachorro da vizinha me tiram completamente de órbita. Volto à estaca zero, parece impossível que algo que considerava tão simples seja tão desafiador agora para mim.

Conversando com alguns amigos por Skype, ouço que somos privilegiados, que podemos trabalhar em casa, no conforto do nosso lar. Nunca a #ficaemcasa foi tão utilizada, mas, para mim, ela é quase um sinônimo de #PorqueMeSintoMalEmTrabalharEmMinhaPropriaCasa? Geralmente não tenho coragem para dizer o que sinto, já que as afirmações sobre os meus privilégios e inegáveis boas condições, se comparados àqueles que não podem estar em casa, são evidentes. É como se eu estivesse dividido em duas partes: uma delas reconhece que sou um “cara de sorte” por ter emprego, poder trabalhar em casa, no conforto do meu lar, mas a outra…. A outra é a minha verdade oculta, aquela que me mostra o que às vezes não quero ver! Sou um homem de números, de probabilidades e estatísticas. Sensações e desconfortos não fazem parte do meu mundo profissional, milimétricamente calculado e pragmático. Mas elas, as sensações, batem à minha porta, me desviam o olhar, me tiram de circulação e me distraem o tempo todo. Estava pensando e tentando entender: Porquê, no escritório, apesar das distrações frequentes, essas sensações não me rondavam como a sombra da morte ronda o moribundo? Por lá, cada coisa tinha seu lugar, o grampeador de papel dentro da primeira gaveta, meu carregador de celular em cima da mesa, meu computador com uns post-its e lembretes, algumas planilhas impressas (porque ainda sou das antigas), meu café e tudo mais que fazia parte do balé perfeito que eu dançava todos os dias. Sinto falta daquela dança, do encaixe perfeito do meu corpo naquela cadeira amaciada por mim, do café quente que tomava entre uma olhada e outra na tela, do perfume das pessoas que trabalhavam próximas a mim. Eram velhas sensações, como objetos antigos que ninguém pensa em tirar do lugar, porque parece que foram feitos para aquele cenário.  E os ruídos? Eles eram como um combustível para mim, o som da impressora, o salto do sapato das meninas, a risada alta do amigo “gente boa”que se senta ao meu lado, tudo tão familiar. Talvez mais familiar que minha própria casa, mais familiar que os ruídos do meu lar, que hoje me causam estranheza e desconforto ao trabalhar.

Agora, estou diante do novo, do desconhecido, do privilégio, que eu particularmente prefiro chamar de oportunidade. Oportunidade de olhar para minhas sensações como genuínas e verdadeiras, olhar para meus sentimentos como naturais. Tudo bem se tenho privilégios,como alguns gostam de dizer, mas isso não me faz ser imune nem ao vírus nem aos sentimentos e desconfortos! Com todas essas incertezas e mudanças, tenho a oportunidade de ouvir o barulho que vem de dentro de mim. E esse, confesso, silenciei por muito tempo. E, por fim, com a suspensão das “aulas de balé” do escritório, vou me permitir dançar “outros ritmos” em casa (garanto que existem sons dos mais diversos), na companhia de pessoas que amo e que também chamo de família. E as planilhas? Ah, os números sempre sabem o que fazer!Depois de cuidar de mim e das minhas emoções,certamente terei êxito ao me relacionar com eles novamente!

Enquanto isso, segue o baile!

887739E7-5E03-4474-882B-0205486408D1

Katia Negri é psicóloga (CRP 06/72158) há 20 anos. Atua na área clínica, com atendimento individual a crianças, jovens e adultos, na cidade de Sorocaba-SP.
Na ASEC atua, desde 2012, como monitora certificada para formação de docentes no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Contato: (11) 96455-9291 – katia@asecbrasil.org.br

 

Um comentário em “O baile do Home Office em tempos de quarentena

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: