O mundo vivendo “dias de embarcado” em casa

O mundo vivendo “dias de embarcado” em casa

Por Alexandre C. Monteiro

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Interessante como muitos de nós costumamos acreditar e levar a sério algum problema apenas quando começa a acontecer muito próximo de nós, com vizinhos, amigos, parentes e até nós mesmos, graças àquele importante mas menosprezado “não, não vai acontecer comigo”, que é praticamente inconsciente. Pois hoje o mundo e, talvez o Brasil pela primeira vez, está vivendo a realidade de se isolar em suas casas de forma tão incisiva, ameaçados por algo que não vemos. E pior, mata. Não a maioria, crianças, jovens, adultos, mas idosos ou aquelas pessoas ditas de risco, caso não tenham complicações como diabete ou outra doença.

Acabou que este isolamento social, tem levado a grande maioria das pessoas a viver uma experiência que os que trabalham “isolados” do mundo como embarcados em plataformas de petróleo, barcos de apoio, marinha mercante e até mesmo, refinaria conhecem bem melhor. Pois é, refinarias como a de Urucum, no Amazonas, não ficam isolados por mar, mas por uma mata tão densa que impossibilita “ir embora” se enjoar deste isolamento. Com mais de 14 anos embarcando em plataforma de petróleo de 80 a 200 km de distância da costa, diria que, como muitos que ainda trabalham também assim, estou adaptado. Mas sendo mais um a viver esta nova realidade de uma pandemia, comecei a pensar que curiosas semelhanças e diferenças existem entre a nossa realidade de embarcados e esta do isolamento social.

Uma das primeiras que vieram à minha cabeça foi em relação ao tempo. Lembro que assim que comecei a ouvir os comentários das primeiras pessoas que começaram a se isolar, como pessoas idosas, após próximo de uma semana, já estavam perdendo a paciência e queriam sair. Entre colegas do trabalho, circulavam comentários e postagens como “bem-vindo à vida de embarcado”, fazendo uma analogia do embarque com o isolamento social. Confesso que também pensei o mesmo, mas com o passar do tempo me dei conta de como seria mais difícil, já que a previsão de isolamento era grande e muito maior que nossa escala de trabalho, que varia de 2 semanas de embarque para 2 ou 3 semanas de folga. Talvez os que trabalhem em embarcações de apoio estejam melhor adaptados, visto terem escalas de 28 por 28, ou seja, 28 dias trabalhando e 28 dias folgando.

Outra questão também interessante, foi com relação ao espaço físico que cada situação permite. Durante nosso confinamento, para todos os lados que olhamos é uma imensidão do mar, com algumas plataformas à vista, outras que de tão longe parecem brinquedo até para os barcos de pesca que se aventuram a viajar até nossas unidades. Inegável também a possibilidade de ver os espetáculos da natureza, como pôr-do-sol, luas, baleias, golfinhos, tartarugas e cardumes de peixes grandes como placas prateadas gigantes na superfície da água. Bom, isso é esporádico e o comum é a imensidão do mar e os navios. Nessa nova realidade de “confinado” em casa, nos deparamos com os limites do nosso prédio, apartamento ou até mesmo um quarto para quem se contamina. Enquanto podemos ou até devemos andar muito nas plataformas, dependendo da função (navios têm em torno de 300 m de comprimento) e ainda interagir com os embarcados (podem incluir de 70 a 150 pessoas, aproximadamente); os confinados urbanos se limitam a encontros ao acaso com moradores do prédio ou apenas àquele que irá lhe entregar sua comida ou remédio.

 Apesar das diferenças, como as que citei, vejo semelhanças principalmente nos efeitos psicológicos que nos provoca tudo isso, como a ansiedade, cansaço mental e irritação. Suas intensidades podem variar de pessoa para pessoa por sua natureza, momentos que estejam vivendo. Mas com certeza, o isolamento social tende uma hora a provocar estes efeitos, já que não nascemos pra isso.

Às vezes perguntam se gosto de trabalhar embarcado, após contar um pouco sobre como é. Costumo responder que estou adaptado, como falei anteriormente. Como muitos agora, nunca passei por isolamento além do tempo de uma escala, talvez alguns dias à mais por cancelamento de desembarques, mas nada como a filha de uma prima na Itália, de 6 anos, que já está há mais de 3 meses em casa. Assim como a foto dela, em que ela parecia feliz tomando sol na sua varanda, também temos muitos bons momentos de brincadeiras e risadas. Demorei a aprender como tem valor isso, não apenas porque, assim como nos trabalhos normais, em terra, sofremos a pressão da produtividade, mas porque trabalhamos em cima de uma bomba, onde circula petróleo e gás sobre alta pressão. Pois é. Para ajudar um pouco osso isolamento, depois de trabalhar nossas 12 horas de turno nesse ambiente hostil, nossas horas de descanso são aliviadas com uma pequena academia, jogos, músicas com colegas de trabalho e umas horas de sono normalmente tranquilos. Salvo se não acordado por aquele colega de camarote que ronca muito ou um alarme na plataforma. Infelizmente, este caso pode ser mais difícil do que você apenas jogar um travesseiro no roncador. Uma situação de emergência, como um vazamento de gás ou princípio de incêndio pode te fazer pular da cama com um alarme de ambulância tocando no seu ouvido para que cada pessoa assuma seu posto no combate da emergência. Eh, ficar confinado em casa já não parece tão ruim, hein?

Dramas e brincadeiras à parte, em cada situação estamos sujeitos a lidar principalmente com nossos limites emocionais e até físicos. Acredito que muitas vezes a questão está em saber qual é nosso limite real e como lidar com eles. Muitos nem cogitam trabalhar em uma plataforma, outros embarcaram num dia e pediram para desembarcar no dia seguinte. Mas outros vivem até mais de 30 anos assim.  Salário melhor, estabilidade, boa folga atraem sim. Mas lidar com todos estes perigos e pressões psicológicas ao longo de anos, com ciclos de embarque e desembarque, também me fizeram buscar formas de encarar todos estes desafios da forma mais saudável possível. A busca pela diversão, seja com amigos, colegas ou sozinho; praticar atividades físicas (mesmo andando em média 5 a 10km por dia..rs), ler e estudar, ocupando a cabeça com coisas boas, principalmente, buscando manter o contato com amigos e família, ajudam a encarar o desafio de lidar e talvez até aumentar o limite psicológico para os efeitos do confinamento. Da mesma forma acredito que neste novo cenário de isolamento, a busca por manter o corpo e a mente em atividades saudáveis, sem insistir em manter o pensamento focado no fato de que “não posso sair de casa”, ajudam a nos dar mais serenidade nesses tempos de “embarcados”. O desafio continua e assim espero mais aprendizados, da mesma forma como os que tive ao longo desses anos de embarque. Agora, nova experiência. Embarcado em casa. Vamos em frente!

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Alexandre C. Monteiro, Químico Industrial e Operador de produção há 14 anos em plataforma de petróleo, atualmente no pré-sal na Bacia de Santos.

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