O que é o amor, onde vai dar?

Por Ana Lucia Machado Maia

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“O que é o amor, onde vai dar?”

O poeta Caymmi na canção diz: “O que é o amor, onde vai dar” ? É sobre o amor que eu vou falar, não é uma história cheirando a mar, mas que bateu forte em mim.

O quanto realmente estamos disponíveis para o amor? Pois é, parece até que a pergunta é absurda, muito responderão, estamos disponíveis, somos constituídos para amar.Concordo, mas, muitas vezes, devemos realmente estar conscientes dessa disponibilidade.

Durante uma aula para minha turminha do 7 ano, observei uma aluna muito acuada, ela sempre muito ativa, comunicativa, naquele dia estava retraída. Deixei-a no meu radar, só observando se algo diferente estaria por vir. Na metade do horário, aproximadamente, ela se levanta e dirigindo-se a mim diz: professora, não estou me sentindo bem. Eu disse ok, peguei em sua mão, gelada. Então ela disse:  – preciso sair da sala agora.

Nesse dia, felizmente, eu tinha um aluno regente em sala, pedi que acompanhasse as atividades, segurei sua mão e saímos da sala.

Para o meu espanto, ela estava entrando numa crise de pânico. No corredor da escola, encostada na parede, vi aquela criaturinha doce e sempre muito alegre, ao prantos dizer que sofria de ansiedade, que se não saísse naquele momento, iria explodir. Fiquei segurando suas mãos e pedi que respirasse comigo um pouco, o choro dela era copioso, revelando um profundo sofrimento. Preocupada, conduzi-a até o atendimento psicológico da escola. Chegando lá, porta fechada, nenhuma profissional para atendê-la, então, era comigo, eu deveria ficar ali e ajudá-la. Não haveria outra alternativa a não ser estabilizá-la até que alguém chegasse.

Nós sentamos, uma ao lado da outra, e comecei a ensiná-la a respirar, focar sua atenção apenas na sua respiração, fazendo com que sua frequência cardíaca desacelerasse e assim fizemos, respirando de olhos fechados, concentradas até a crise ir passando. Quando estava um pouco mais estável, ela começou a me contar sobre seu problema. Eu ouvi com atenção, mas ponderei que era minha obrigação comunicar à escola e, consequentemente, à família para que ela fosse auxiliada por um profissional qualificado.

Pedi que ligasse para sua mãe vir buscá-la e, assim, a escola poderia contar o que ocorreu. Para minha surpresa, ela disse que a mãe já sabia e que estava sendo orientada por um psicólogo. No entanto, o que mais me surpreendeu foi o que me revelou: – não vou ligar professora, porque ela está no trabalho e não poderá vir e quando eu estou assim em crise e ela me vê triste, diz: – Oh filha, não chora, não fica assim que se eu vejo você chorar eu também não aguento e choro. Eu paralisei. O que aquela menina de 12 anos, sofrendo de ansiedade estava me dizendo era que sua mãe não consegue se controlar quando a vê em crise. A mãe mergulha com a filha no desespero e de mão dadas. Ela estava ali me contando que diante de sua fragilidade ainda tem que lhe dar com a fragilidade de sua mãe. Não soube o que dizer. Fiquei em silêncio. E foi um silencio para mim profundo e reflexivo. Percebendo-a melhor, mais estável, perguntei se poderia voltar à minha sala de aula, se ela ficaria bem sentada ali aguardando alguém da equipe psicológica chegar.

Voltei confusa para minha sala de aula, porque aquela situação me convidou a pensar muito sobre como nós, pais, aí me incluo, estamos realmente disponíveis para o amor. Sei que essa mãe ama profundamente sua filha, seique a dor que sente vendo sua filhinha sofrer deve ser extrema, mas urge que tenhamos uma ação consciente do que é o amor, de estarmos vigilantes a todo o momento sobre como vamos agir e o que vamos dizer quando alguém que amamos profundamente passa por problemas emocionais. Estar disponível para amar significa ação consciente, fazer uma autoanalise e descobrir no seu íntimo, pai e mãe, se possui os “instrumentos” necessários para enfrentar ao lado dos seus filhos todos os desafios e se não os têm, faz-se necessário educar-se, educar suas emoções e assim permitir que o amor possa estar presente, não apenas nos momentos bons, mas, sobretudo, nos não tão bons.

Para amar o outro é preciso se conhecer também, amar é doação e cura. Quando o poeta pergunta, “o que é o amor, onde vai dar”? Ele potencializa o significado do amor, ele diz, você não sabe o que o poder do amor pode te levar a fazer, então, prepare-se.

Defender a educação socioemocional nas escolas é mais do que tarefa da ASEC, porque educar os professores, quese encontram despreparados para enfrentar essa crescente demanda de alunos que não conseguem dialogar com suas famílias sobre seus problemas, pelas mais diversas razões, é um dos pontos de conexão dessa grande rede de saberes que habitam a escola. Neste caminhar de crianças para adolescentes muitas mudanças ocorrem e eles devem aprender a reconhecer seus sentimentos e estabelecer uma posição crítica e consciente sobre as ações a si mesmos e também sobre os outros. Por outro lado, educar a escola, sim a escola precisa ser educada também, significa que essa deva apresentar alternativas de convivência em seu espaço e, sobretudo, abrir a comunicação com as famílias sobre temáticas emocionais. E por fim, não menos importante, dialogar com os pais, que se encontram tão ou mais perdidos que os próprios filhos. Logo, se um filho pede socorro ao pai ou a mãe, por amor, eles devem se fortalecer para ancorar seu filho ou sua filha. É importante lembrar que a vida real não são aquelas postagens feitas nas redes sociais. Na vida real, é necessária disponibilidade para amar.

A ASEC vem realizando um lindo trabalho com crianças e adolescentes, fazendo-as despertar para esse autocuidado, fortalecendo-os para esse mundo tão desafiador.

Autoria: Ana Lucia Machado Maia, de Recife – PE, mãe e professora. Implementou, em 2019, o Programa Passaporte: Habilidades para a vida para um grupo de adolescentes e testemunhou despertares para o autocuidado.

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