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Frustração infantil e a importância de dizer não

birra

Por: Paola Centieiro

Outro dia deparei-me com uma cena, que acredito já ter sido presenciada por muitos de nós: em um supermercado uma criança se debatia no chão enquanto que uma mãe, constrangida, tentava calmamente conversar com ela e explicar o porquê de não poder levar o chocolate pedido naquele dia. Quantos de nós já não vimos ou, até mesmo, vivenciamos uma situação como essa, não é mesmo?

Ao observar aquela cena, logo pensei em quantos sentimentos estavam ali envolvidos, o constrangimento da mãe, a raiva da criança, e o que deve ter dado início a tudo isso, a tal da frustração.

Mas, afinal, o que é frustração?

Frustração é o sentimento que nos abate em decorrência da não realização de um desejo ou expectativa e, geralmente, vem de “mãos dadas” com muitos outros sentimentos, como a raiva e a tristeza. Apesar da frustração ser muito associada ao fracasso ou desilusão, ela é de extrema importância para o desenvolvimento emocional sadio.

Vivemos em uma era de imediatismos, rapidez e satisfação instantânea. Desde pequenas as crianças estão acostumadas a ter acesso a desenhos ilimitados em canais infantis e na internet, jogos ao alcance dos dedos em tablets e celulares, satisfação instantânea.

Lembram-se dos tempos de “outrora” quando tínhamos que aguardar, ansiosamente, pelos desenhos animados nos programas infantis matinais? Quando tínhamos que aguardar a visita de primos e amigos para termos com quem brincar com nossos jogos de tabuleiro, bonecos de ação ou para ter quem batesse a corda de pular no quintal de casa? Eram tempos em que recebíamos, diariamente, uma pequena dose de frustração! Aí está, a tal da frustração presente, desde cedo, em nossas vidas, não somente nos momentos de fracasso ou grande desilusão, mas em nosso cotidiano, nas pequenas ações diárias.

Como adultos sabemos que nem sempre poderemos ter o que desejamos, ou na velocidade em que desejamos, exigindo, muitas vezes, trabalho e dedicação para alcançarmos nossos desejos e objetivos. Assim, percebemos que as frustrações são parte inerente da vida adulta; conseguir encará-las e encontrar formas de lidar com o desconforto causado por elas são fundamentais para nosso crescimento interior e bem-estar emocional.

Na ânsia de ver nossos filhos felizes e realizados podemos acabar nos esforçando em atender a todos os seus desejos, acreditando que, ao negar-lhes algo, estaremos lhes causando sofrimento. Quando os pais tentam de todas as maneiras evitar qualquer tipo de sofrimento ou frustração da criança estão sendo imediatistas porque, poupando-os desse tipo de sofrimento, privam seus filhos de oportunidades de crescimento pessoal e de compreensão de mundo. O excesso de proteção pode, futuramente, resultar em adultos que não conseguem lidar com as frustrações cotidianas e adversidades da vida.

A cada situação de frustração vivenciada a criança aprende a encontrar uma forma de lidar com desconforto gerado pela negação do seu desejo, a perseverar em seus objetivos, a encontrar novos caminhos e superar adversidades. Nesse sentido podemos dizer que passar por situações de frustração abre espaço para desenvolver resiliência, também tão importante em nosso desenvolvimento social e emocional.

Pequenas doses de frustração são necessárias para que as crianças compreendam que a frustração faz parte da vida. Ao permitirmos que as crianças se frustrem algumas vezes contribuímos para que elas sejam adultos mais resilientes e compreensivos. O não é um ato de amor.

É comum que crianças pequenas chorem ou “façam birra” ao sentirem-se frustradas pelas primeiras vezes e sabemos como pode ser dolorido ver o sofrimento de uma pessoa querida por nós, mesmo quando sabemos a importância daquele momento. Voltando à imagem da criança no chão do supermercado reflito em quanto amor estava envolvido naquele “não” àquela criança, no esperar da mãe para que a criança se acalmasse e na conversa sobre os motivos de não poder levar o chocolate naquele dia.

Ao nos sentirmos apoiados quando nos frustramos, percebemos que “tudo bem” as coisas não saírem da forma que planejamos ou desejávamos, e “tudo bem” nos sentirmos tristes ou com raiva por conta disso.

Aprender, desde cedo, a buscar estratégias para lidar com o desconforto emocional que sentimos e encontrar formas de nos sentirmos melhor, mesmo em meio as adversidades é uma ferramenta importante, que pode ser uma poderosa aliada na hora de dizer não.

Lidar com os sentimentos desagradáveis é um dos pilares dos programas e cursos de Educação Emocional da ASEC.

Para saber mais, acesse: www.az.org.br

Paolitcha

Paola é professora, atuou durante 13 anos em turmas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, em escolas e instituições sem fins lucrativos. Desde 2014 atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças e como coordenadora do núcleo regional do Rio de Janeiro.

Você tem contribuído com o desenvolvimento emocional dos seus filhos?

Você tem contribuído com o desenvolvimento emocional dos seus filhos

Por: Katia Negri

Você tem contribuído com o desenvolvimento emocional dos seus filhos?

Muitos de nós, no exercício de educar nossos filhos, dizemos coisas com o objetivo de ajudá-los, porém, podemos acabar atrapalhando o desenvolvimento do seu autoconhecimento e a conexão consigo mesmos.

Mas, por que e em que momento isso acontece?

Você deve se lembrar de alguma vez que seu filho se machucou na escola ou durante alguma brincadeira em casa! Geralmente, quando os vemos chorando e dizendo que o ferimento está doendo, reagimos dizendo coisas como: “Isso não é nada”! Ou ainda: “Que exagero, um corte tão pequenininho”! Apesar de estarmos muito bem intencionados, não estamos considerando que, para eles naquele momento o machucado está doendo de fato, e apesar de parecer para nós adultos que não foi nada mais sério, pode ter sido muito dolorido para quem se feriu! Desta forma, acabamos negando ou diminuindo o que estão sentindo naquele momento.

O mesmo acontece quando não validamos os sentimentos e desconfortos das crianças. Quando estão tristes, por exemplo, independente do motivo, é fundamental que possamos acolher o sentimento delas, pois ficar triste é natural e faz parte da vida não é mesmo? Quando dizemos: “Não precisa ficar triste por causa disso”, estamos transmitindo indiretamente a ideia de que: ela “não deve” se sentir triste, que esse sentimento é “errado” e aos poucos a criança vai se distanciando de si mesma, e ficando com dificuldade para identificar os próprios sentimentos.

Nossa comunicação com nossos filhos é construída a partir das nossas experiências pessoais (que envolve também o que ouvimos de nossos pais e adultos em geral durante a infância), e nossos próprios sentimentos. Ouvir das crianças que elas estão tristes, desperta tristeza em nós também. Isso nos ajuda a entender por que repetimos as frases acima, sem nos dar conta do efeito delas para o desenvolvimento emocional dos nossos filhos. Imagine, ao longo da vida, quantas vezes podemos transmitir às crianças e jovens mensagens que são contrárias àquilo que sentem e o quanto isso dificultará o autoconhecimento.

Mas, é possível tomar consciência dos efeitos da nossa fala, como estamos exercitando neste texto, e gradativamente nos apropriar de maneiras mais eficientes de comunicação para o desenvolvimento emocional dos nossos filhos:

  • Ensine seus filhos a reconhecer os sentimentos e lidar com eles. Algumas frases podem ajudar: “Como você se está se sentindo”? “É natural ficar triste”. “Você gostaria de conversar sobre o que está sentindo”?  “Estou percebendo que seu machucado está doendo muito”!
  • Ofereça ajuda e disponibilize seu tempo. Que tal perguntar a ele se você pode fazer algo que o ajude a se sentir melhor diante de um problema (lembre-se de que mesmo que o problema dele pareça pequeno para você, ele pode ser enorme para quem está vivenciando, ok?)

E para finalizar, fica a questão:

Será que podemos também utilizar as perguntas e frases acima com as pessoas com as quais nos relacionamos diariamente, além dos nossos filhos?  Qual seria o efeito disso para nossas relações pessoais? Esse assunto fica para outro post! Até lá!

Para saber mais sobre os nossos programas de Educação Socioemocional, acesse: www.asecbrasil.org.br