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Você sabe o que é “banda estreita”? Saiba como ela pode ajudar as crianças a lidarem com seus sentimentos

olho no olho

Por: Tania Paris

 

Quem usa internet conhece bem as vantagens de uma banda larga. Ela permite o uso simultâneo do recurso de comunicação por múltiplos usuários. Podemos, inclusive, acionar a execução de mais de uma transação através de um mesmo computador. A banda larga é recurso para economizar nosso tempo.

Nosso tempo é um recurso precioso, não estocável, não recuperável. Seja por esse motivo ou outro, estamos aprendendo a funcionar como uma banda larga – atuamos em várias tarefas ao mesmo tempo. Quem é que dirige e durante o tempo do trajeto só dirige? As mães não “assoviam e chupam cana” só porque a boca não é banda larga. Mas arrumar a mochila das crianças enquanto cobram que elas estejam prontas e dá instruções para o marido e confere a mensagem que chegou no Whatsapp, tudo ao mesmo tempo, lá isso quase todas conseguem.

Aí, depois de todo o treinamento que temos para economizar tempo, chega o momento em que uma das crianças volta da escola triste. Nossa tendência é continuar atuando em “banda larga” e tentar “resolver” essa tristeza rapidamente – rapidamente porque existem muitas outras tarefas e problemas para dar conta.

Tristeza, frustração, decepção, medo… dos filhos não se “resolve”. Crianças que estão experimentando sentimentos difíceis precisam de acolhimento para reconhecerem e lidarem com o sentimento, para se desenvolverem emocionalmente. Uma mãe em “banda larga”, preocupada com outras coisas e com o sempre ligado celular, não é adequada.

Momentos como esse são excelentes oportunidades, se for possível virar uma chavinha e mudar para “banda estreita” = processamento de um só usuário. Desligar tudo, a cabeça principalmente, e estar totalmente voltada a facilitar que a criança se expresse e encontre, por ela mesma, seu caminho. A banda larga nos impulsionaria a dar-lhe soluções; a banda estreita permite a sabedoria de dar a ela o tempo de que precisa para desenvolver autopercepção e autonomia. A banda larga nos induziria a subestimar os sentimentos; a banda estreita nos proporciona condições de aproximação, diálogo, participação emocional na vida da criança.

Aos assuntos intelectuais, que tenhamos a banda mais larga possível; aos emocionais, que seja estreita a um único usuário – aquele a quem tanto amamos.

 

foto-tania-para-publicidadeTania Paris fundou a Associação pela Saúde Emocional de Crianças para dar oportunidades às crianças de aprenderem, desde muito cedo, a lidar com seus sentimentos e com as dificuldades da vida. “Amigos do Zippy” é um programa internacional de Educação Emocional, representado exclusivamente pela ASEC no Brasil, que é desenvolvido em escolas pelos próprios professores das crianças. www.az.org.br

Frustração infantil e a importância de dizer não

birra

Por: Paola Centieiro

Outro dia deparei-me com uma cena, que acredito já ter sido presenciada por muitos de nós: em um supermercado uma criança se debatia no chão enquanto que uma mãe, constrangida, tentava calmamente conversar com ela e explicar o porquê de não poder levar o chocolate pedido naquele dia. Quantos de nós já não vimos ou, até mesmo, vivenciamos uma situação como essa, não é mesmo?

Ao observar aquela cena, logo pensei em quantos sentimentos estavam ali envolvidos, o constrangimento da mãe, a raiva da criança, e o que deve ter dado início a tudo isso, a tal da frustração.

Mas, afinal, o que é frustração?

Frustração é o sentimento que nos abate em decorrência da não realização de um desejo ou expectativa e, geralmente, vem de “mãos dadas” com muitos outros sentimentos, como a raiva e a tristeza. Apesar da frustração ser muito associada ao fracasso ou desilusão, ela é de extrema importância para o desenvolvimento emocional sadio.

Vivemos em uma era de imediatismos, rapidez e satisfação instantânea. Desde pequenas as crianças estão acostumadas a ter acesso a desenhos ilimitados em canais infantis e na internet, jogos ao alcance dos dedos em tablets e celulares, satisfação instantânea.

Lembram-se dos tempos de “outrora” quando tínhamos que aguardar, ansiosamente, pelos desenhos animados nos programas infantis matinais? Quando tínhamos que aguardar a visita de primos e amigos para termos com quem brincar com nossos jogos de tabuleiro, bonecos de ação ou para ter quem batesse a corda de pular no quintal de casa? Eram tempos em que recebíamos, diariamente, uma pequena dose de frustração! Aí está, a tal da frustração presente, desde cedo, em nossas vidas, não somente nos momentos de fracasso ou grande desilusão, mas em nosso cotidiano, nas pequenas ações diárias.

Como adultos sabemos que nem sempre poderemos ter o que desejamos, ou na velocidade em que desejamos, exigindo, muitas vezes, trabalho e dedicação para alcançarmos nossos desejos e objetivos. Assim, percebemos que as frustrações são parte inerente da vida adulta; conseguir encará-las e encontrar formas de lidar com o desconforto causado por elas são fundamentais para nosso crescimento interior e bem-estar emocional.

Na ânsia de ver nossos filhos felizes e realizados podemos acabar nos esforçando em atender a todos os seus desejos, acreditando que, ao negar-lhes algo, estaremos lhes causando sofrimento. Quando os pais tentam de todas as maneiras evitar qualquer tipo de sofrimento ou frustração da criança estão sendo imediatistas porque, poupando-os desse tipo de sofrimento, privam seus filhos de oportunidades de crescimento pessoal e de compreensão de mundo. O excesso de proteção pode, futuramente, resultar em adultos que não conseguem lidar com as frustrações cotidianas e adversidades da vida.

A cada situação de frustração vivenciada a criança aprende a encontrar uma forma de lidar com desconforto gerado pela negação do seu desejo, a perseverar em seus objetivos, a encontrar novos caminhos e superar adversidades. Nesse sentido podemos dizer que passar por situações de frustração abre espaço para desenvolver resiliência, também tão importante em nosso desenvolvimento social e emocional.

Pequenas doses de frustração são necessárias para que as crianças compreendam que a frustração faz parte da vida. Ao permitirmos que as crianças se frustrem algumas vezes contribuímos para que elas sejam adultos mais resilientes e compreensivos. O não é um ato de amor.

É comum que crianças pequenas chorem ou “façam birra” ao sentirem-se frustradas pelas primeiras vezes e sabemos como pode ser dolorido ver o sofrimento de uma pessoa querida por nós, mesmo quando sabemos a importância daquele momento. Voltando à imagem da criança no chão do supermercado reflito em quanto amor estava envolvido naquele “não” àquela criança, no esperar da mãe para que a criança se acalmasse e na conversa sobre os motivos de não poder levar o chocolate naquele dia.

Ao nos sentirmos apoiados quando nos frustramos, percebemos que “tudo bem” as coisas não saírem da forma que planejamos ou desejávamos, e “tudo bem” nos sentirmos tristes ou com raiva por conta disso.

Aprender, desde cedo, a buscar estratégias para lidar com o desconforto emocional que sentimos e encontrar formas de nos sentirmos melhor, mesmo em meio as adversidades é uma ferramenta importante, que pode ser uma poderosa aliada na hora de dizer não.

Lidar com os sentimentos desagradáveis é um dos pilares dos programas e cursos de Educação Emocional da ASEC.

Para saber mais, acesse: www.az.org.br

Paolitcha

Paola é professora, atuou durante 13 anos em turmas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, em escolas e instituições sem fins lucrativos. Desde 2014 atua  como Monitora Formadora de professores em Educação Emocional na ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças e como coordenadora do núcleo regional do Rio de Janeiro.